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Com amor para Dilma Roussef

o problema é que plantaram um gueto e um condomínio
numa mesma vizinhança mesmo pedaço de chão
e a convivência acirrada entre mundos tão distintos
formou contraste esquisito e aumentou a confusão

o problema é que fizeram um buraco muito grande
entre o filho da madame e o filho da lavadeira
e enquanto ‘ajudam aquele’ descendo escada rolante
com a ‘baixa’ autoestima‘gigante’ eu tô subindo a ladeira

o problema é que fizeram um abismo assoberbado
entre o filho do açougueiro e o filho do burguês
e enquanto eu assimilo o dialeto do gueto
falando língua de preto ele na aula de inglês

a questão é que a distancia entre as “satélites” e o “plano”
é um abismo assoberbado de milhares de reais
e enquanto os playboyzinhos desfilam de carro novo
pelos‘lagos’ pelas ‘asas’ eu tô andando pra trás

mas como aniquilar tantos males seculares
sendo escassos os recursos herdados das hostes do mal?
e como administrar tantas forças que em conflito
turvam o sonho de dom bosco pro distrito federal?

e como diminuir o tamanho do buraco
sendo o mesmo tão extenso e sendo a corda tão fina?
e como equilibrar os pés de dilma roussef
no vão da boca do abismo da américa latina?


E como vencer a antropofagia dos poderosos
donos de sanha tamanha e safadeza imortal?
e como saciar a sede desta classe predatória
que nos quer analfabetos com fome e sem hospital

pra manter os privilégios e os ouvidos bem fechados
ao clamor dos miseráveis que habitam a estrutural
etcetcetcetcetcetcetcetcetcetcetc etc. etc. etc.
etc.etc. etc. etc. etc.etc. etc.etc. etc.etc coisa e tal?

***

transparência igualdade competência pluralismo
a solução está posta na palma da nossa mão
e está na própria raiz do problema a resolver:
diminuir a distancia entre quem tem e quem não



ENTRE A HECATOMBE E O MAREMOTO

...entre a hecatombe e o maremoto
surfe galáctico numa estrela?
enquanto navios negreiros descem
enquanto navios negreiros sobem
avistará cometas da janela?...

“...estou dentro da fornalha
com meu chegado daniel
mas morri todo queimado
um tição esturricado
sem paraíso e sem céu...”
                     
...entre as pirâmides e babilônia
projetos de supernovas?
enquanto a história forja hitleres
e o tempo entalha maos e lenins
testes finais com as órbitas?...

“...com meu colega Moisés
penso em não mais ser ateu
atravesso a passo lerdo
o mar aberto e o deserto
mas não acho o leite e o mel...”

 ...entre uma erupção e um tsunami
pique-esconde em nebulosas?
pretos  somem nas favelas
pouco ou nada nas panelas
quais suas vibes cabulosas?...

“...também fui jogado no poço
pela mão dos meus irmãos...
...também casei com uma moça
que já não era mais moça
pra provar minha devoção...”

...entre gaza e tel aviv
de moçambique à tanzânia
entre uma injustiça e um conflito
um pentecostal aos gritos
o elevaria ao nirvana?...

“...também me enforquei na figueira
mas ele forjou a traição...”
“...e tendo negado-o três vezes
não obstante os revezes
ele não deu-me opção...”

...entre um holocausto e um apartheid
fará unhas no salão?
e entre uma grande guerra
e uma outra grande guerra
uma partida de gamão?...

“...pego o caco e raspo a crosta
da ferida feito joh
até perder minha vida
na cidade destruída

e reduzida a pó...”

NADA DO QUE SOU ME FAZ INTEIRO



nada do que sou me faz inteiro
nada no atoleiro me segura

funda a sepultura e não me afogo
folgo junto à pútrida manilha



o verão
tenta o disfarce do sol
eu anoiteço

nada do que enxergo me acomoda

ladra o cão à lua
automóveis

galgo teus degraus mas tão sem viço

no entanto vivo
e permaneço a primavera
tenta o engano da flor

eu espinheiro

VOCÊ NÃO VALE NADA

você não merece minhas meias verdades
porem não suporta a verdade inteiriça

você solicita minha sinceridade
atrás da máscara de noviça



você prolifera periculosidade
arrota verdade e justiça
você desliza por toda a cidade
fingindo não ver a imundícia

nada
você não vale nada
“Você bebe um vidro de perfume quando vai na privada”

você fala muito em honestidade
você até mesmo vai á missa
você ganha dinheiro com o alheio
e vive a criticar minha preguiça

você é a própria cara da fidelidade
que em seu tosco coração não viça
você fala de fé com profundidade
mas sua clarividência é omissa

nada
você não vale nada
“Você bebe um vidro de perfume quando vai na privada”

você fala em ética e igualdade
e o seu discurso quase me enfeitiça
mas se eu viro as costas me apunhala
o olhar enevoado de cobiça

você pratica a usura e enriquece
a custa da miséria submissa
você compra o martelo dos juízes
e compra a indiferença da policia

nada
você não vale nada
“Você bebe um vidro de perfume quando vai na privada”

você vence nos pleitos com trapaça
e o seu proveito é sua premissa
o seu cinismo a tudo ultrapassa
a farsa te atrai e te atiça

transforma a coisa pública em privada
faz da verdade coisa fictícia
você é uma vergonha para a classe
e sua espécie tem que ser extinta

nada
você não vale nada
“Você bebe um vidro de perfume quando vai na privada”

ORIUNDO DAS MADRUGADAS FRIAS


oriundo das madrugadas frias

meu verso quer dizer tão pouco
primeira pessoa maria
é tudo que penso estou rouco



de tanto falar pro mundo
das coisas que vão no peito
que nada tem de profundo
mas são minhas não tem jeito

eu tenho que expô-las destro
espadachim do nordeste
minha voz tá pronta e de resto
sou mesmo é cabra da peste

cangaceiro do futuro
enfrento volantes eternas
rosto antes de puro duro
e um velocino entre as pernas

fui preparado na arte
de ler a mente dos homens
extraio ouro de marte
e tudo o que não é ouro some

meu peito é de aço não nego
de adamantium minhas garras
a máscara de morcego
impede de verem minha cara

que expele raios oriundos
dos meus olhos de x man
que podem ferir profundo
a quem não me disser amém

de esquálidus o saiote
eu herdei de disney um dia
e trago então aos magotes
tudo que vc quereria

sou o doutor xavier
no centro da periferia
criança homem mulher
cujo poder poderia

dar outro rumo e outro mote
a esta vã servidão
moldar o barro dos potes
melindrar o mau patrão

se não fosse a covardia
se não fosse a inconsciência
se não fosse a letargia
se não fosse a incompetência

que medra o corpanzil rude
do qual tirarei sem dó
coração que não me ilude
e o reduzirei a pó

com o argumento que trago
no estalo do meu chicote
e dançarão sem embargo
um rap um samba um xote

e um funk carioquíssimo
descendo até o chão
onde comerão comigo
o pão que amassara o cão

na padaria do inferno
onde eu era o ordenança
a amolar o tridente
num esmerilho da frança

a espetar bunda de gente
que se atreva a enfrentar
nossa fé tão insistente 
de si pá é nóis ki tá

até que o meu versejar
cumpra enfim sua função
ou levo o sertão pro mar

ou levo o mar pro sertão

Declamando na Bienal

Na noite de 30 de agosto, poetas e ativistas do Movimento SuperNova estiveram na Bienal do B para prestigiar o evento e a apresentação de Paulo Dagomé, convidado do coletivo para apresentar pílulas do seu trabalho poético. Acompanhado de Nanda Pimenta e Devana Babu, Dagomé subiu ao palco do Açougue T-Bone e, antes de declamar, lembrou da alegria ao receber o convite para participar do evento. “Atravessamos a ponte com a alegria de termos sido lembrados para um evento tão importante”, declarou.
No site do T-Bone encontramos a origem do evento e seu estranho nome: “A Bienal do B surgiu quando a II BIP - Bienal Internacional de Poesia foi cancelada pela Secretaria de Cultura do GDF. A não realização do evento foi um constrangimento para o organizador que já tinha convidado grandes nomes da poesia como Ernesto Cardenal, Oswaldo Montenegro, Augusto de Campos, Ferreira Gullar, Rui Espinheira Filho, Marina Colasanti, Jorge Ariel Madrazo e vários outros nomes da cidade. Nós, do Viva Arte resolvemos ir até o Antonio Miranda e propor um solução alternativa que seria o "plano B". Aí então surgiu o nome Bienal do B poesia e literatura na rua. Aceitando o convite, partiu imediatamente para a organização do evento. A Bienal do B tornou-se um sucesso e acontece anualmente em frente ao Açougue Cultural T-Bone”.
Apesar de ser o convidado para representar o Movimento SuperNova na Bienal, quem roubou a cena foi Nanda Pimenta, que ofuscou os ‘experimentados’ Dagomé e Devana Babu e saiu ovacionada do palco com sua performance sobre poema de sua autoria. Monstros sagrados da poesia brasiliense como Nicholas Behr, Menezes e Moraes e Jorge Amâncio, saudaram na efusivamente como uma nova promessa da cena sarauzeira do DF.
Apesar disso público aplaudiu entusiasticamente a apresentação de Paulo Dagomé, que representou com galhardia a arte produzida na cidade de São Sebastião.
A 3ª edição da Bienal do B, organizado pelo Açougue Cultural T-Bone teve, neste ano, participação de artistas como Renato Matos, Simone Guimarães, Clara Telles, Dialeto MCs, Eliab Lira, Afonso Gadelha e a banda Oficia Blues, entre outros, bem como dos poetas Nicolas Behr (o homenageado deste ano), Jorge Amâncio, Amneres Pereira, André Giusti, Vicente Sá, Dina Brandão e Fabrizio Morelo e, claro, Paulo Dagomé, Edvair Ribeiro, Devana Babu e Nanda Pimenta do Movimento SuperNova.
O evento durou quatro dias com debates, feira literária e apresentações musicais intercaladas com os versos de mais de 100 poetas — cerca de 25 por dia. Apesar de ter no nome “bienal”, o evento acontece anualmente como uma forma de protesto. A ideia, segundo Luiz Amorim organizador do encontro, é que a Bienal aconteça sempre no fim de agosto, para garantir a tradição da data.
O objetivo é mostrar que Brasília tem uma poesia universal, que tem um plano B, mesmo sem apoio do governo, declara Luiz Amorim.

As imagens acima são de Edvair Ribeiro e no link abaixo você pode ver mais fotos da Nanah Farias..



Criatura

da tessitura com que te fizeram
sobrou material para três mil humanos
e niemeyer trabalhou seis meses
na curvatura do teu dorso insano

necessitou-se trinta e três jazidas
de diamantes se retransformando
que eu julgava ser a estrela do oriente
e eram teus olhos me traumatizando

depois confúcio pensou por três anos
a forma pura do nariz que ostentas
freud endoidou te analisando
vieira te banhou em água benta

picasso ao ver-te nunca mais faria
senão rabiscos senão garatujas
da vinci reproduziu teu sorriso
augusto viu-se entre urubus e corujas

por ti marjorie quase larga o homer
tu foste o nirvana de sidarta
a causa da cisão meca e medina
e da guerra entre atenas e esparta

homero ficou cego à tua vista
noé frequentemente enchia a cara
fidel castro exilou-se numa ilha
e em uma serigrafia che guevara

tua luz fez saulo cair do cavalo
césar cruzou o rubicão sem bote
naruto confundiu-te com sakura
e logan uivou como um coiote

foste o eterno retorno que abalou niestzche
foste a cura das mazelas de hipócrates
o inferno e o paraíso de alighieri
razão maior da sicuta de sócrates

nero quando te viu pegou da tocha
e pra te iluminar pôs fogo em roma
salomão falava em éguas o palhaço
davi viu-te em batseba ó minha dona

contente alexandre preparou bucéfalo
para conduzir você pelo oriente
e foi por ti e não pelas moedas
que judas na figueira fez-se ausente

o tocha humana antes não era tocha
do supérman foste a kriptonita
o spider-man enredou-se em tua teia
e a mary jane enforcou-se com uma fita

joana darc ao conhecer-te fez-se lésbica
beethoveen para ti compôs a quinta
lutero abandonou fé e batina
manabu mabe pensa em ti sempre que pinta

noel pra ti fez o feitiço da vila
jesus não sabe que eras madalena
moisés quando te viu tremeu-lhe a vara
e jeremias de tão triste dá me pena

e eu de boca aberta e jubiloso
dei gritos de triunfo e o estandarte
ergui desde a aurora até o crepúsculo
são teus o meu amor e a minha arte



se um dia eu não puder estar



se um dia eu não puder estar
com você e ao seu redor
que triste ficará este lugar
e tudo ao derredor

e quando eu tiver que acordar
e não te encontrar no amanhecer
a noite novamente descerá
e de novo irei adormecer

e quererei só acordar naquele novo lugar
em que você tiver que viver
e se for pra estar onde você não está
eu prefiro nem querer

então que eu não seja onde você não está
que eu não esteja onde você não vá
pois se for pra estar contigo será bom qualquer lugar
se não for deixa pra lá

que a luz me abandone onde você não brilhar
e esvaia lentamente
pois somos únicos na forma de ser um par
raros são como a gente

que a força não me sustente onde você fraquejar
me faltem coração e mente
pois só à tua sombra eu posso descansar
tranqüilo e contente

então quando você tiver que se reencantar
pro lugar definitivo
me avise uns dias antes pra eu arrumar
meus  discos e meus livros

pra eu partir antes de você e te esperar
na borda do absoluto
no qual mais quinze séculos irão passar
antes do novo luto

do qual eu partirei antes de ti de novo
e à beira do impoderável
te esperarei  pra  milenar  jornada
do nosso amor renovável


Luzes da cidade

As luzes da cidade servem só pra iluminar 
Teus passos na avenida pra que todos possam ver 
Que não há outra tão bonita nesta freguesia 
E eu sou aquele que ela escolheu por companhia 
E juntos pelas ruas todos podem perceber 
Que fomos feitos um pro outro yeah 

Eu gosto dela mais do que gosto de mim 
Eu vou com ela a qualquer parte e até o fim 
E embora os anos passem nosso amor é juvenil 
No cento do planeta no coração do Brasil 

Se o sol clareia a terra ela é quem clareia o sol 
Enquanto se espreguiça toda embaixo do lençol 
 e enquanto ela se arruma lentamente pra sair 
Eu fico imaginando o melhor meio de a despir 
Estrelas piscam pra melhor iluminar você 
Em seu passeio pela noite yeah 

Eu gosto dela mais do que gosto de mim 
Eu vou com ela a qualquer parte e até o fim 
E embora os anos passem nosso amor é juvenil 
No cento do planeta no coração do Brasil

Voz: Yuri Mello
Música e letra: Paulo Dagomé












Uma Canção para Niemeyer


A minha vida é sempre assim... 
É como a flora do cerrado...
São galhos tortos postos 
sobre estes troncos torturados...
Mas preparei flores pra ti... 
E frutos bem adocicados...
Cajus, cagaitas e pequis... 
Mangas colhidas com cuidado!

Retas perseguem setas e rotas nunca dantes experimentadas...
Eu vi um ângulo impossível furar o vão e virar escada!
Era uma mão ou era uma asa aquela concha tão desvairada?
E aquele vão onde passam vans...? E aquele voo por sobre o nada?!

E aquele círculo em espiral e aquela curva tão concavada!
E olhem só que palmas esguias! E estas formas enfileiradas...
Esteta louco! Não vê que cai! Este experimento vai dar em nada!
Vejo que ri atrás dos bigodes e da prancheta endiabrada!

E do início até aqui
Lobo guara´sempre acuado
Chego a pensar em desistir!
Querem-me exterminado!
Mas eu persisto em insistir...
Meu território demarcado!
Ó meu amor é para ti 
o meu esforço concentrado...

Paulo Dagomé com imagens de Nilmar Paulo