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ENTRE A HECATOMBE E O MAREMOTO

...entre a hecatombe e o maremoto
surfe galáctico numa estrela?
enquanto navios negreiros descem
enquanto navios negreiros sobem
avistará cometas da janela?...

“...estou dentro da fornalha
com meu chegado daniel
mas morri todo queimado
um tição esturricado
sem paraíso e sem céu...”
                     
...entre as pirâmides e babilônia
projetos de supernovas?
enquanto a história forja hitleres
e o tempo entalha maos e lenins
testes finais com as órbitas?...

“...com meu colega Moisés
penso em não mais ser ateu
atravesso a passo lerdo
o mar aberto e o deserto
mas não acho o leite e o mel...”

 ...entre uma erupção e um tsunami
pique-esconde em nebulosas?
pretos  somem nas favelas
pouco ou nada nas panelas
quais suas vibes cabulosas?...

“...também fui jogado no poço
pela mão dos meus irmãos...
...também casei com uma moça
que já não era mais moça
pra provar minha devoção...”

...entre gaza e tel aviv
de moçambique à tanzânia
entre uma injustiça e um conflito
um pentecostal aos gritos
o elevaria ao nirvana?...

“...também me enforquei na figueira
mas ele forjou a traição...”
“...e tendo negado-o três vezes
não obstante os revezes
ele não deu-me opção...”

...entre um holocausto e um apartheid
fará unhas no salão?
e entre uma grande guerra
e uma outra grande guerra
uma partida de gamão?...

“...pego o caco e raspo a crosta
da ferida feito joh
até perder minha vida
na cidade destruída

e reduzida a pó...”

NADA DO QUE SOU ME FAZ INTEIRO



nada do que sou me faz inteiro
nada no atoleiro me segura

funda a sepultura e não me afogo
folgo junto à pútrida manilha



o verão
tenta o disfarce do sol
eu anoiteço

nada do que enxergo me acomoda

ladra o cão à lua
automóveis

galgo teus degraus mas tão sem viço

no entanto vivo
e permaneço a primavera
tenta o engano da flor

eu espinheiro

VOCÊ NÃO VALE NADA

você não merece minhas meias verdades
porem não suporta a verdade inteiriça

você solicita minha sinceridade
atrás da máscara de noviça



você prolifera periculosidade
arrota verdade e justiça
você desliza por toda a cidade
fingindo não ver a imundícia

nada
você não vale nada
“Você bebe um vidro de perfume quando vai na privada”

você fala muito em honestidade
você até mesmo vai á missa
você ganha dinheiro com o alheio
e vive a criticar minha preguiça

você é a própria cara da fidelidade
que em seu tosco coração não viça
você fala de fé com profundidade
mas sua clarividência é omissa

nada
você não vale nada
“Você bebe um vidro de perfume quando vai na privada”

você fala em ética e igualdade
e o seu discurso quase me enfeitiça
mas se eu viro as costas me apunhala
o olhar enevoado de cobiça

você pratica a usura e enriquece
a custa da miséria submissa
você compra o martelo dos juízes
e compra a indiferença da policia

nada
você não vale nada
“Você bebe um vidro de perfume quando vai na privada”

você vence nos pleitos com trapaça
e o seu proveito é sua premissa
o seu cinismo a tudo ultrapassa
a farsa te atrai e te atiça

transforma a coisa pública em privada
faz da verdade coisa fictícia
você é uma vergonha para a classe
e sua espécie tem que ser extinta

nada
você não vale nada
“Você bebe um vidro de perfume quando vai na privada”

ORIUNDO DAS MADRUGADAS FRIAS


oriundo das madrugadas frias

meu verso quer dizer tão pouco
primeira pessoa maria
é tudo que penso estou rouco



de tanto falar pro mundo
das coisas que vão no peito
que nada tem de profundo
mas são minhas não tem jeito

eu tenho que expô-las destro
espadachim do nordeste
minha voz tá pronta e de resto
sou mesmo é cabra da peste

cangaceiro do futuro
enfrento volantes eternas
rosto antes de puro duro
e um velocino entre as pernas

fui preparado na arte
de ler a mente dos homens
extraio ouro de marte
e tudo o que não é ouro some

meu peito é de aço não nego
de adamantium minhas garras
a máscara de morcego
impede de verem minha cara

que expele raios oriundos
dos meus olhos de x man
que podem ferir profundo
a quem não me disser amém

de esquálidus o saiote
eu herdei de disney um dia
e trago então aos magotes
tudo que vc quereria

sou o doutor xavier
no centro da periferia
criança homem mulher
cujo poder poderia

dar outro rumo e outro mote
a esta vã servidão
moldar o barro dos potes
melindrar o mau patrão

se não fosse a covardia
se não fosse a inconsciência
se não fosse a letargia
se não fosse a incompetência

que medra o corpanzil rude
do qual tirarei sem dó
coração que não me ilude
e o reduzirei a pó

com o argumento que trago
no estalo do meu chicote
e dançarão sem embargo
um rap um samba um xote

e um funk carioquíssimo
descendo até o chão
onde comerão comigo
o pão que amassara o cão

na padaria do inferno
onde eu era o ordenança
a amolar o tridente
num esmerilho da frança

a espetar bunda de gente
que se atreva a enfrentar
nossa fé tão insistente 
de si pá é nóis ki tá

até que o meu versejar
cumpra enfim sua função
ou levo o sertão pro mar

ou levo o mar pro sertão

Criatura

da tessitura com que te fizeram
sobrou material para três mil humanos
e niemeyer trabalhou seis meses
na curvatura do teu dorso insano

necessitou-se trinta e três jazidas
de diamantes se retransformando
que eu julgava ser a estrela do oriente
e eram teus olhos me traumatizando

depois confúcio pensou por três anos
a forma pura do nariz que ostentas
freud endoidou te analisando
vieira te banhou em água benta

picasso ao ver-te nunca mais faria
senão rabiscos senão garatujas
da vinci reproduziu teu sorriso
augusto viu-se entre urubus e corujas

por ti marjorie quase larga o homer
tu foste o nirvana de sidarta
a causa da cisão meca e medina
e da guerra entre atenas e esparta

homero ficou cego à tua vista
noé frequentemente enchia a cara
fidel castro exilou-se numa ilha
e em uma serigrafia che guevara

tua luz fez saulo cair do cavalo
césar cruzou o rubicão sem bote
naruto confundiu-te com sakura
e logan uivou como um coiote

foste o eterno retorno que abalou niestzche
foste a cura das mazelas de hipócrates
o inferno e o paraíso de alighieri
razão maior da sicuta de sócrates

nero quando te viu pegou da tocha
e pra te iluminar pôs fogo em roma
salomão falava em éguas o palhaço
davi viu-te em batseba ó minha dona

contente alexandre preparou bucéfalo
para conduzir você pelo oriente
e foi por ti e não pelas moedas
que judas na figueira fez-se ausente

o tocha humana antes não era tocha
do supérman foste a kriptonita
o spider-man enredou-se em tua teia
e a mary jane enforcou-se com uma fita

joana darc ao conhecer-te fez-se lésbica
beethoveen para ti compôs a quinta
lutero abandonou fé e batina
manabu mabe pensa em ti sempre que pinta

noel pra ti fez o feitiço da vila
jesus não sabe que eras madalena
moisés quando te viu tremeu-lhe a vara
e jeremias de tão triste dá me pena

e eu de boca aberta e jubiloso
dei gritos de triunfo e o estandarte
ergui desde a aurora até o crepúsculo
são teus o meu amor e a minha arte



se um dia eu não puder estar



se um dia eu não puder estar
com você e ao seu redor
que triste ficará este lugar
e tudo ao derredor

e quando eu tiver que acordar
e não te encontrar no amanhecer
a noite novamente descerá
e de novo irei adormecer

e quererei só acordar naquele novo lugar
em que você tiver que viver
e se for pra estar onde você não está
eu prefiro nem querer

então que eu não seja onde você não está
que eu não esteja onde você não vá
pois se for pra estar contigo será bom qualquer lugar
se não for deixa pra lá

que a luz me abandone onde você não brilhar
e esvaia lentamente
pois somos únicos na forma de ser um par
raros são como a gente

que a força não me sustente onde você fraquejar
me faltem coração e mente
pois só à tua sombra eu posso descansar
tranqüilo e contente

então quando você tiver que se reencantar
pro lugar definitivo
me avise uns dias antes pra eu arrumar
meus  discos e meus livros

pra eu partir antes de você e te esperar
na borda do absoluto
no qual mais quinze séculos irão passar
antes do novo luto

do qual eu partirei antes de ti de novo
e à beira do impoderável
te esperarei  pra  milenar  jornada
do nosso amor renovável


Chamado Urgente


aproximou-se de mim suspirou no meu cangote
abriu a asas do fole e tocou um triste xote
pegou a pedra e o punhal e aprimorou o seu corte
abriu o mapa do além e escolheu o meu lote
meteu a espora no jegue e apressou o seu trote
chamou meus filhos pra mim e exigiu que os exorte
disse que ancho eu vivi que era um sujeito de sorte
me dispensou das moedas disse que era meu dote
mandou-me comprar um terno não trasladava de esporte
e um bom esquife de cedro ou cerejeira do norte
que me faria navegar na proa do seu negro bote
não de classe econômica mas no melhor camarote
que eu não chorasse na hora que me fingisse de forte
que eu preparasse os poemas e as canções com algum porte
e publicasse depressa carimbou meu passaporte
vestiu uma capa nova preparou o seu transporte
mandou fazer testamento mandou beijar a consorte
eu fiz muxoxo tristinho ela mostrou –me o chicote
me perguntou culto ou missa eu dispensei sacerdote
pegou da faca afiada pôs a ponta em minha glote
cantou um canto agourento mas já não me lembro o mote
falou que a coisa era séria que não era convescote
mandou preparar a mesa mandou deixar cheio o pote
mandou que quitasse as contas pois ia dar-me um paparote
que eu ia parar era longe me chamou de fidalgote
que nem cheguei a ser sancho mal cheguei a dom quichote
me chamou de mulherzinha deu-me depressa um saiote
me disse muita pilhéria me passou foi muito trote

***
acordei  no mei da noite tremendo e suando forte
olhei prum lado e pro outro tava vivo e tava forte
tava gordo tava corado tava que nem um garrote
dormindo que nem um rei comendo que nem serrote
sambando que nem baiano andava dando pinote
já passando dos quarenta e parecia um rapazote
galo véi mas dand’no couro melhor que muito frangote

***
disse tenho tempo não não falo como quem arrote
valentia mas garanto dei uma banana pra morte
virei pro lado e dormi pois tenho saúde aos magote
disse a ela tome tento vassimbora e não me volte
antes dos cem pois se não eu monto no seu cangote
lhe esporo lhe dou no rim e lhe arrenego dona morte
***

 ela abaixou a cabeça e como que num recorte
de tempo viu minha vida passando como um spot
de vídeo desde a barriga de mainha até este lote
e disse como quem morre por dentro não se importe
você só quer ser a bala que levou lennon à morte
mas lhe agaranto e afirmo que antes que você note
eu volto pra te buscar pro teu cantinho filhote
e te prometo que o canto mais quente do meu resort
guardado de dia e de noite por ferocíssimo coiote
com um guarda a lhe ferroar sentado no seu caixote
personal-proctologista tocando trompa e fagote
enquanto vosmicê se esbalda dançando meu foxtrote
não me queira mal nessa hora não me chame iscariote
que eu tô na beira da estrada só lhe preparando o bote
porque do time do inferno você vai ser a mascote.


Por ocasião do aniversário de Nanah


o mantra que recito sem convicção alguma
vira profissão de fé se você se aproxima
bonita como fora propaganda de cerveja
tranqüila como filme rodado em câmera lenta

o vento dá nas arvores do outono em desalinho
brasília toda seca e a pele quase range
mas quando linda você surge ao fim da comprida rua
mangueiras jorram pletora de água em meu quintal

posto porém que o passado me conduz ao cadafalso
e posto que o meu futuro seja uma interrogação
e posto que o meu presente passa desapercebido
suponho que estou fadado a viver neste desgosto

mas quando você se arruma e põe aquele tamanco
que coisa mole e tola rocambolesca que eu viro
o terço que desenrolo com preguiça pelos dedos
torno objeto milagroso se em você permaneço

carrego grossa corrente no pescoço sem alento
acontecem chibatadas do destino eu lamentoso
mas quando você sorri encostada ao parapeito
da janela do teu quarto sou o próprio dalai lama



Por ocasião do aniversário de Nanah



é claro que a reconhecereis quando chegar
pois trará luz a toda a volta e onde pisar
pois toda coisa certa estará lá
pois toda lua cheia
pois toda lua nova
alumiará

com ela a alegria dura dura dura dura dura
mesmo que a noite seja escura
a luzazul que sobe dela é muito pura

é claro que a reconhecereis quando a virdes
pois dialoga sem palavras com a loucura
o sol a beira dela tem uma cor escura
fica sem fala quem a vê

tamanha a formosura

com ela a alegria dura dura dura dura dura
mesmo que a noite seja escura
a luzazul que sobe dela é muito pura

e é claro que sabereis de quem se trata
empresta brilho às estrelas e som às serenatas
seu dorso protegido pela vasta cabeleira
silencia todo som
otimiza o que é bom
de toda maneira

com ela a alegria dura dura dura dura dura
mesmo que a noite seja escura
a luzazul que sobe dela é muito pura

Por ocasião do aniversário de Nanah


Eu fiz essa canção com muito açúcar
Eu fiz com muito mel de jataí
Com muito mel de cana e rapadura
Eu fiz com muito doce de pequi 

Pus muito sonho de confeitaria
Pus muita serigüela e sapoti
Pus muito cajuito e manga rosa
Algodão doce e doce de buriti 

Pus toneladas de mel de Europa
Maná sonho pavê manjar pudim
Baba de moça muitos fios de ouro
E mais de cinco metros de quindim 

Sorvete chocolate e marshmelo
Eu pus duas tigelas de açaí
Pus muito doce de batata doce
Pus tudo na panela e comi 

Mas nada é tão doce 
quanto o beijo 
que eu dei nela 
sem pedir


Por ocasião do aniversário de Nanah



teu sorriso colou-se aos meus lábios
araldite durepóxi superbonder
ando agora a contê-lo
o sorriso
mas quem disse que o olhar o esconde?

tua imagem acoplou-se-me à pele
circuncisão tatuagem cicatriz
ando agora a espantá-la
a imagem
grande é o peso de me achar feliz

teu olhar grudou-se-me à retina
urucum rímel sombra pau-brasil
ando agora a evitá-lo
o olhar
para não morrer no trânsito de abril

teu suor perspegou-se-me ao tato
siameses almas gêmeas baião-de-dois
ando agora a transpirá-lo 
o suor
vida antes de você ...e depois