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mais um rap - o rap do malagay

17 malagay.wma
“To ligado” nas “parada” mano
Esse sistema é mesmo muito desumano
Eu era um cara respeitado no pedaço
Mais conhecido como Célio mão-de-aço

Eu dava as “orde” pra tudo quanto é Mané
E eu vivia só cercado de “muié”
“Tresoitão” na cinta eu tava bem na fita
E a minha mina sempre era a mais bonita

A mulherada só vivia no meu vácuo
e a “malaiada” só puxando o saco
todas gatinhas me tratando como um rei
Até que um dia eu me tronei o malagay

Quando eu saia minha mãe desesperava
Pois ela não tinha certeza se eu voltava
Até que um dia na trigésima depê
Na minha cela eu fui caindo na “deprê”

Fiquei pensando minha vida é uma merda
Batia em prostituta só pra ver a queda
Chamava minha ma e de “véia” desgraçada
Só não batia porque ficava calada

Só não chamava minha Irmã de santa e rapadura
Cheirava tanto que quase meu nariz fura
Era cola com merla e coca com maconha
Heroína com pequi e crack com pamonha

E foi ali na cela da delegacia
Que eu conheci o sargento Garcia
A primeira vista eu me apaixonei
E desde então eu me tornei o malagay

Essa paixão inesperada mudou toda minha vida
Estou mudada estou muito agradecida
Eu era infeliz e felizmente eu não sabia
Ate que eu conheci o sargento Garcia

Na primeira vez que a gente se beijou
O seu enorme bigode o meu nariz coçou
Na segunda vez confesso que gostei
Mas na terceira vez eu já me viciei

Mas minha mãe contratou um advogado
Que em um mês já havia me soltado
Sem usar mascara assaltei o beerrebe
E a policia logo veio me prender

E desde então tem sido assim a minha vida
Já estou pensando em me tornar um suicida
E ver se eu pego uma pena mais polpuda
Pois transferiram meu Garcia pra papuda

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outro rap


encontrar entre extremos o objeto

que me faça ser reto e verdadeiro

ser inteiro mesmo que fracionário

visionário e os pés no mundo inteiro

e espero não ter que esperar muito

pelo pouco que quero e não consigo

e se sigo é de teima e desespero

desamparo descrença e desabrigo

a ironia me protege

o desprezo é armadura

meu riso de mofa

meu olho de escárnio

disfarce pra minha ternura

distinguir entre as rosas e os cardos

porque tardo nesta ideologia

a vazia comédia em que faço

o palhaço despido de ironia

desmistificar ritos e oráculos

com meu báculo hirto destra língua

tenho a idade antiga dos profetas

e a paixão dos poetas pela vida

a ironia me protege

o desprezo é armadura

meu riso de mofa

meu olho de escárnio

disfarce pra minha ternura

fomentar esse estranho objeto

desmedido desejo de justiça

que não vinga por não vingar o feto

dessa minha clarividência omissa

me perdôo porque me acovardo

e adio e tardo a revolta

minha escolta são arcanjos arqueiros

sou guerreiro de eterna meia volta

a ironia me protege

o desprezo é armadura

meu riso de mofa

meu olho de escárnio

disfarce pra minha ternura

vislumbrar entre os estreitos e os largos

a justeza da minha fantasia

deus em deu essa tempera de aço

mas negou-me do mesmo a face fria

engajar-me mas abster meus olhos

do fanático brilho que degusto

que justifica a guerra e a faz santa

mata a planta a criança e acha justo

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um rap

a mesma pasmaceira na cidade

a mesma grosseria dos peêmes

o mesmo ‘fala sério’

o mesmo ‘tipo assim’

a mesma música nas éfeêmes

Dêem-me um pensamento original

Que saia do padrão

Estrofe e refrão

Dêem-me um pensamento divertido

Mamonas assassinas

Invertido

Dêem-me um pensamento como o meu:

Falo do rabo alheio

E do meu

Dêem-me um pensamento daquele jeito:

falem mal de mim

mas falem direito

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os loucos não errarão o caminho

Quero ter alguém com quem conversar. Alguém que depois não use o que eu disse contra mim.
renato russo
Calma é a face do meu mar, mas esconde monstros impiedosos.
Nietzsche
Você fica pilhada quando eu erro. Mas eu não erro. Eu não erro. Eu uso tons dissonantes.
Paulo Dagomé

então, tudo bem. se não há outro jeito, vamos lá.
meu signo, meu gen e minha formação no mais das vezes impedem-me de revelar às pessoas aquilo que realmente penso. a face lívida esconde monstros. torço-me atrás da máscara de bom moço. minha simpatia oculta análises frias e calculistas. (nem sempre corretas)
e é-me difícil dizer coisas como as que direi a seguir: durante muitos anos pensei uma revolução particular quando ainda clarinetista na congregação cristã no brasil e, depois, quando me evadi dela, ainda construía modelos de reforma da sociedade de um modo singular até à concepção do que viria a ser os “radicais livres”, idéia que surgiu numa noite de lua cheia, a partir de uma leitura que eu fiz sentado no vaso do banheiro da casa que hoje chamamos de senzala, sobre o movimento armorial, sendo que o possível grupo, a quem chamei inicialmente de ‘a ordem dos templários’ seria um híbrido de capitalismo e socialismo, como se a rede mcdonalds vendesse comida natural com a mesma voracidade. os sujeitos que foram agregando-se a esta idéia inicial não comungavam propriamente com ela, nem ela era tão clara para mim como foi se tornando depois, porém era necessário realizar alguma mudança no cenário cultural de são sebastião e não havia tempo pra recrutar um sem número de pessoas e depois fazer uma seleção dos mais adequados ao ofício de ‘ativista cultural sem ranço ideológico muito profundo’. era preciso lutar com os mercenários, os revolucionários, os párias, os bem-nascidos, os viciados, os veados, os amotinados, os perturbados, os insurgentes, as putas, os canalhas, os políticos, os anárquicos, os devassos, os profetas, os poetas, os palhaços... devana babu e célio-mão-de-aço... vinicius borba e saulo dias... hellen cris e sueli... nayara e hellen afro... claudia bullos e máximo que ainda não era mansur... carla bianca e thiago alexander... júlio césar e david patrick... pra isso minha simpatia servia muito bem. e eu a usei. até este momento eu a usei. depois deste momento não se poderei.
***
éramos joões-ninguém. éramos zé-manés. éramos os figurantes nas filas intermináveis esperando o 147.3 na rodoviária do plano piloto, que nunca estaria vazio, pra voltar pra maldita e empoeirada cidade-dormitório, descansar algumas horas e voltar pro batente no dia seguinte, com um lencinho pra limpar o assento cheio de poeira, de cara amarrada, batendo a cabeça no vidro da janela do ônibus porque o sono da noite anterior não fora suficiente, já que são seis horas da manhã e tem muita faxina e jardinagem pra fazer nas modestas casas do lago sul.

***
depois era o sarauradical e aquela alegria insana.
***
élio júnio foi pra faculdade. hellen foi pra faculdade. borba foi pra faculdade. julio foi duas vezes pra faculdade. dagomé foi pra faculdade. naiara foi pra faculdade. élson foi pra faculdade. diogo foi pra faculdade. sueli terminou a faculdade. carla foi pra faculdade. cris foi pra faculdade. saulo foi pra faculdade. john montou um negócio. isaac virou professor. binho virou professor. devana virou escritor. surica virou compositor. dagomé virou gerente de cultura...
***
viramos protagonistas sem saber que isso estava acontecendo. esse protagonismo gerou ascensões sociais que, se não geram mudanças profundas no desenrolar da revolução, vai determinando uma “evolução” social qual medidor da qualidade e da velocidade do processo. sendo os caçulas do terceiro setor em são sebastião, acredito que estamos na vanguarda das realizações na cidade. tenho muitas dificuldades de separar o que é feito pelos radicais do que é feito pela gerencia talvez em virtude da mistura que falei anteriormente entre o capital e o social. o radical livre, com raras exceções, não tem preparo intelectual, ideológico ou mesmo ético para fazer as devidas separações entre o público e o privado, entre o capital e o social porque neles estas coisas se misturam pelo simples fato de que para eles “é tudo nosso!!!!”.
o estado é nosso. a administração é nossa. a cidade é nossa. nós somos os donos das coisas e, aos poucos, estamos nos apropriando daquilo que durante muito tempo disseram que não nos pertencia. só que isso é um processo. não começou ontem e não vai terminar amanhã. temos uma meta utópica de alcançar a estrela. nosso objetivo é dominar o mundo e começamos por são sebastião, mas temos consciência de que só os nossos tataranetos o farão na sua integridade e não nos importamos com isso. o fato de já termos consciência de que o mundo nos pertence e de que nos utilizaremos do próprio sistema para dominá-lo é-nos suficiente. e temos consciência de que quando depusermos o último dos oligarcas faremos uma eleição para o cargo de gerente da revolução.
é uma besteira ficar nesse trololó ideológico interminável. pra nós interessa a vida. a participação na vida. a intervenção na vida. cantar, interpretar, declamar, gritar. causar polêmica. provocar o choro. arrancar gargalhadas. nós não viemos para trazer a paz e sim a espada. se lasquem, doidos. quem conosco não ajunta, espada. porém, amigo meu comeu, eu tô gozando. se isso é à esquerda, melhor ainda. se tem ranços marxistas, que ótimo. se tem semelhanças com o velho petismo, que massa. se envolve a comunidade, estamos felizes. Se é ético, responsável, ecológica e politicamente correto, que magavilha. se é possível envernizar nosso trabalho com teorias oriundas da verve daniélica no que tange à revolução utópica que ele carrega em si como fruto da sua formação marxista, não queremos outro presidente. Amo muito tudo isso. mas nós não temos tempo pra muita discussão, não! temos muito que fazer. temos mais o que fazer. neste momento em que escrevo julio césar, ede.c, surica, borba e diogo estão numa reunião com a diretora de uma das nossas escolas públicas para tomar conta - a convite expresso da diretora para os radicais livres - do projeto da escola integral que será implantando lá. nós não tivemos tempo para nos perguntar se foi o arruda ou o lula ou o caudilho que inventaram esse negócio de escola integral. nós só sabemos que tem uns meninos que receberão oficinas culturais no horário contrario às aulas e a gente acha que isso é bom pra eles e a gente vai lá e faz aquilo que acordamos. nem sabemos se fazemos direito. no processo a gente descobre e “correge”
enquanto isso, são três da tarde, o mão-de-aço tá consertando a aparelhagem de som pra um evento de rock que vamos fazer numa escola e devana babu e luiz próton estão fazendo uns desenhos toscos sobre um olho que sai do corpo do cara, ganha vida própria e sai espalhando discórnea, digo discórdia por aí... a bia e a priscila estão gravando, numa aparelhagem ruim dos infernos, uma música da carla, com uns arranjos do maestro tiago, pra colocar num festival de música de uma instituição dominada por petistas, enquanto um forrozeiro chamado carlinhos brown, vocalista de uma banda chamada arrasta gatinha veio pedir o som da gente emprestado pra fazer um evento chamado forró solidário pra arrecadar alimentos pra uma creche que a gente nem sabe se é idônea ou não... velhos, fodam-se marx e engels! fodam-se weber e hegel! se lasquem aristóteles e platão. morram kierkgaard e jung. ao inferno com plotino. morram todos que estão todos mortos. temos mais o que fazer. temos mais o que viver. se em cada cidade satélite de brasília houvesse um grupo que produzisse arte e revolução, ainda que inconsciente, como os radicais livres fazem, estávamos feitos. oxalá em cada administração regional houvesse um radical livre infernizando com sua capacidade e seu talento (que nós somos capazes e talentosos e, de quebra, somos bonitos) a morosidade letárgica do poder. temos nosso próprio equipamento de som. pagamos em dia o aluguel da nossa sede. temos nossa bateria. temos nossos cubos de baixo e guitarra. temos nossos instrumentos musicais. temos pelo menos cinco bandas no grupo. temos um grupo de teatro. temos um arte finalista próprio. temos artistas plásticos, poetas, declamadores, compositores, cronistas, romancistas, desenhistas, dançarinos, teatrólogos, todos nós jogamos xadrez, todos lemos bastante, temos blogs com um belo acervo, temos empreendedores, vários tocam instrumentos musicais, temos um vocabulário vasto, somos reconhecidos como vanguarda cultural em todo o distrito federal, temos um especialista em direitos da criança e do adolescente, ganhamos vários festivais, temos uma ong que é oscip, nossos filhos crescem ouvindo poesia, dançamos a dança do creu recitando pessoa, tocamos bateria por partitura, temos uma ala na escola de samba, temos quarenta aprendendo basquete, temos quarenta aprendendo xadrez, temos trinta aprendendo teatro, temos vinte aprendendo dança de salão, temos quarenta na iniciação musical, temos vinte na aula de violão. temos doze no vôlei. temos dois fanzines. nosso computador é fruto de um prêmio. somos atrações da feira do livro. estamos à beira de ganhar um terreno de dois mil metros quadrados pra construir nossa sede e fizemos o gerente de cultura da nossa cidade.
a cada festa que fazemos, por mais que ela não tenha o cunho educacional necessário e eu também não sei se festa tem que ter cunho educacional, uma dezena de pessoas é beneficiada pela chamada economia da cultura. um sem número de mototáxis – coisa mais periférica não existe. lindas barraquinhas de churrasquinho de gato. maravilhosos empresários do ramo cervejeiro com suas higiênicas caixas de isopor. veículos altamente higiênicos vendendo o nacionalíssimo hot-dog. dançarinos altamente performáticos. músicos que recusaram convite da orquestra sinfônica por amor à noite. dj’s e suas variadas versões da dança do créu. donos de equipamentos de som. arte-finalistas. profissionais gráficos. proprietários de carros de som. locutores emproados. motoristas de táxi embasbacados. vagabundos profissionais apelidados de promoter. mascates do corpo alheio. garotos de programa. caixeiros não viajantes. balconistas. roubadores de almas, mais conhecidos como fotógrafos. cinegrafistas sonolentos. barmans entediados. garçons empertigados. vendedores de bombons de qualidade discutível. comerciantes de canabis. coladores de cartaz nas madrugadas sombrias. panfleteiros nas tardes silenciosas. emproados donos de casas de shows. sovinas vendedores de caipifruta. escusos mercadores de pó. truculentos seguranças. cambistas éticos. senhoras profissionais da noite. refinados guardadores de carros. a clássica vendedora de flores. e quando tudo acaba certos mercantes já retiraram todos os recipientes que outrora continham o aurífero líquido a que denominamos cerveja e o campo está limpo para que, de manhãzinha bem cedo, os garis venham e façam a parte que lhes cabe neste latifúndio. pra isso servem as festas. alegram a alma e mantêm famílias. mais do que tudo, nós, radicais, somos felizes. nós somos felizes. não temos quase nada e somos felizes. não temos carros e somos felizes. temos moradias precárias e somos felizes. temos uma cidade pobre (em mutação) e somos felizes. temos uma vida espartana e o pensamento ateniense e somos felizes. somos felizes no nosso sarau. somos felizes porque o carnafamília é nosso. porque o festival de inverno é nosso. porque a festa da cidade é nossa. porque o administrador da cidade é nosso. porque fizemos um deputado. porque viramos o jogo político como cidades maiores e mais conscientes não fizeram. porque a maioria das pessoas que trabalham na administração regional são da nossa cidade como não era no passado. quando comecei na administração, a primeira coisa que pensamos foi num fórum de cultura, que deu origem ao conselho regional de cultura e apoiamos desde o primeiro momento a formação da associação de artistas de são sebastião. entreguei na mão dos esportistas da cidade, em reunião bastante representativa, um estatuto para que estudassem a formação do conselho regional de esportes, já com um modelo de regimento interno. estamos preparando o estatuto do conselho de ação social que será formado em breve e para isso convidamos o pessoal que cursa ação social nas faculdades virtuais de são sebastião. chamamos a asass, associação de artistas, da qual somos sócios fundadores, para gerenciar a festa da cidade. chamamos a organização costa leste, formada por rapers, a qual ajudamos a criar, para cuidar dos eventos de hip hop. chamamos o pessoal do basquete para interferir nas ações do segmento e assim fizemos com cada um deles. futebol, vôlei, atletismo, xadrez, gospel, católicos, quadrilhas juninas, artesanato... abrimos uma sala, ao lado da sala da divisão de cultura, para uso dos conselhos, com computador, telefone, impressora, xérox, mesas, cadeiras e uma secretária, funcionária da divisão de cultura, disponibilizada para tal métier. tentamos contribuir com cada segmento sem nos intrometermos nas especificidades de cada um. se esse pessoal não se apodera dos instrumentos que colocamos em suas mãos para fazer a revolução necessária, a exemplo do que fazem os radicais livres de são sebastião distrito federal brasil américa do sul planeta terra via láctea sistema solar universo fodam-se todos. se lasquem, doidos. nós estamos fazendo o que achamos que temos de fazer. por nós e por outrem. não querem entrar na dança, vão dançar. querem ficar nas intermináveis reuniões marcadas para definir o dia e o horário da próxima reunião, morram filhos de uma puta. e quando digo tentamos, fazemos ou pensamos não estou tentando ser modesto. estou falando de nós, radicais livres, a quem consulto com freqüência, principalmente os com quem mais convivo, com deferência especial a julio césar, george gregori e diego suricate. fizemos bons eventos e boas oficinas. longe do ideal que pulula em nossa cabeça, é verdade. mas, mais longe ainda do marasmo cultural em que vivia essa bendita cidade antes que existíssemos nela como agentes de cultura. na noite de ontem dez adolescentes da nossa oficina de teatro foram a um dos mais consagrados saraus do distrito federal e fizeram bonito declamando poesia e encenando. na noite de hoje sete radicais, entre eles mão-de-aço, estarão fazendo um curso de cinema. na noite de hoje doze garotas foram à brazlandia, num carro da administração regional o qual estão usando há uma semana e ganharam a partida que lhes deu o direito de disputar a semifinal de um campeonato tradicional. estão há uma semana usando esse carro. vão trazer o troféu nesse carro. que não é da administração. é deles. ora, dirão, o que isso tem a ver com a gerencia de cultura. ora, direi: tudo. é tudo nosso.
muitas dessa “conquistas” podem ser ilusões. mas temos a ilusão de que há um avanço qualquer e que os radicais livres e o gerente de cultura têm uma participação efetiva, objetiva, medível, ímpar, nessa mudança. contamos para isso com vários maravilhosos “burgueses” a quem deixamos de odiar e de considerar os únicos responsáveis por nossa desgraça: daniel, andré, beth, élber, claudia, cláudio, outros... muito do que “conquistamos” é fruto do meu “maquiavelismo nobre”. minto, engano, desfalco, pilho, subverto, torço, desvio, roubo, achaco, trapaceio, mordo, implico, trucido, futuco, pinico, espeto, aperto, jogo, subjugo, compro, massacro, influo, inverto, pirateio, rapino, fraudo, coopto e acredito que um dia matarei pelos ideais de revolução atípica dos radicais livres. não paro. não paro. não paro. vou ser secretário de cultura do distrito federal e só não serei ministro por que não vai dar tempo. estarei compactuando com o poder para que algumas coisas sejam feitas para o populacho. não vou brigar com golias. vou aproveitar os momentos em que ele cochilar e roubar comida pros habitantes do vilarejo. não tenho forças ou recursos pra essa luta ideológica na qual não acredito como essencial pra quem tem fome de alma. não é possível derrotar o “inimigo” com as fracas forças que tenho. vou puxar o saco de nero e roubar um cacho de uvas pra matar a fome da minha família e, quem sabe, um dia, no futuro, eu reúna o dinheiro suficiente pra pagar um mercenário para assassiná-lo. nesse dia eu não vacilarei um minuto. mas esse dia não é hoje. eu não tenho medo. eu perdi o respeito. eu pus o pé no caminho. tem uns caras que tão indo na frente com umas lamparinas velhas e roubadas pra identificar o caminho. tens uns caras que tão subornando uns guardas na retaguarda pra retardar seu passo. e é só. o resto é a história que a gente ainda vai construir. nela estará escrito que um bando de loucos se reuniu pra fazer teatro poesia e música e descobriram que dá pra ser politico e poeta. ator e empresário. músico e estadista. compositor e oficineiro. baterista e professor. cronista e químico. dona de casa e promoter. artista plástico e diretor de cultura. eletricista e sonoplasta. revolucionário e empreendedor. eu sei que parece loucura. mas os loucos não errarão o caminho...

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quente



e se eu colher a flor do seu sorriso

transformo essa secura e essas cigarras

em umidade quente como a gente

no meio dessa gente indiferente



e se eu tirar o veu da tua alma

eu rompo a fronteira entre este lago

e esta cidade quente como nós

no meio desta triste urbe sem voz



e se eu provar do mel da tua boca

será a sensação de erva ou pó

ou qualquer coisa quente como um beijo

de um fauno ardendo em febre de desejos



e se eu sugar teus dentes com volúpia

convenço-te da inutilidade

deste poema quente ao falar-te

são teus o meu amor e a minha arte



no meio dessa gente indiferente

no meio desta triste urbe sem voz

de um fauno ardendo em febre de desejos

são teus o meu amor e a minha arte

Música: Mansur
Letra: Dagomé
Voz: Cláudia Rizzo

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A Encruzilhada



Quando eu era garoto e morava numa cidade não muito pequena do interior da Bahia, fundei, em parceria com uma das pessoas mais inteligentes que conheço, o meu amigo Zé Dias, uma “entidade” a que demos o nome de ASD, que significava singelamente: Associação Secreta de Detetives.

Fãs de Batman e Robin, sonhávamos com o dia em que teríamos um lugar secreto para guardar os vários apetrechos que íamos comprando aos poucos - canivetes, binóculos, cordas, lanternas - até chegar ao nosso próprio carro personalizado, passando antes, é claro, por walkie talkies que falariam a longa distancia. Sonhávamos com o milagre do celular. Não sei com que argumentos conseguimos convencer uma garota de uns 22 anos a ser a secretária da ASD. Ela recebia telefonemas e recados enigmáticos de um ou outro de nós, repassava a quem indicávamos, anotava o que pedíamos, marcava reuniões às quais só nós dois comparecíamos e nós jurávamos que ela não sabia o que estava escrito naqueles bilhetes (Até o dia em que descobrimos que o pai dela era detetive de verdade e ensinara a espertinha o código que usávamos e que supúnhamos indecifrável até pela SS nazista) Com o tempo adquirimos uma série de objetos ultra necessários ao nosso ofício: uma boa lanterna, uma bússola vagabunda, uma faca de pescador, alguns apetrechos e já tínhamos idéia de quantos meses seriam necessários para comprar os tão desejados e necessários walkie talkies. Escondíamos os objetos menores em furos que fazíamos nos muros da escola, em lugares recônditos, e todos os dias após a aula, pé ante pé, passávamos para ver se ainda estavam lá.

Compramos um livro que ensinava uma técnica de karatê e praticávamos depois da aula até escurecer e tínhamos certeza de que ficaríamos quase tão bons quanto Bruce Lee se treinássemos bastante. Adquirimos “O melhor Vendedor do Mundo” de Og Mandino e “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas” de Dale Carnegie, quando não sabíamos o que era auto-ajuda. Ouvíamos música popular instrumental, tocada por aquelas big bands americanas, líamos tudo que nos aparecia pela frente sem nenhum critério e nos achávamos eruditos. Tínhamos certeza absoluta de que éramos os caras mais inteligentes da escola, mas nunca perdíamos tempo tirando notas acima de 7, pois tínhamos mais o que fazer. Quando eu repeti o 2º ano foi um deus-nos-acuda lá em casa. È que a minha preocupação era tirar nota média e eu acabei vacilando. Economizávamos como loucos para assinar o jornal A Tarde (Um dos melhores da Bahia) (esqueci de dizer que somos baianos e tudo isso se passou em Vitória da Conquista, a melhor cidade do País) e parecer informados. Imitávamos a SHIELD, uma revista em quadrinhos da Marvel e a logo da ASD era inspirada no escudo daquela organização. Adorávamos o Homem de Ferro e sua corporação. O Planeta Diário era um sonho. E tínhamos certeza de que teríamos a amizade do delegado da cidade e o chamaríamos na intimidade de Gordon.

Os Radicais Livres levaram ao extremo a idéia de agrupamento secreto ou não secreto, atuante e organizado, que acalentei na adolescência. Os Radicais Livres, que a princípio chamei de Ordem dos Templários, até perceber no Google que havia milhares de sítios e agrupamentos com esse nome, são minha razão de viver. Minha melhor idéia. Meu melhor poema de amor. Meu time do coração. Minha cachaça. Meu pó. Minha papoula da índia, minha flor da Tailândia. Meu sex and drugs no episódio quatro do Radical Rock.

E tudo que imaginei para a ASD virou uma estranha e maravilhosa verdade com os Radicais. As pessoas falam de nós em todo o Distrito federal como “a coisa” underground do momento, um negócio contra cultural, um fenômeno paranormal, um mito, um misto de punks, nerds, beats, gays, bad boys, anarquistas, bichos grilos, mistificadores e afins.


Nosso slogan é “A tecnologia da Mistificação”.

Nosso grito de guerra é “Se lasque, doido”.

Nosso lema “Quem conosco não ajunta, espada”.

A frase abaixo do nome do nosso jornal é “Antes que os homens virem macacos”

O mote do Radicalrock é “Um cons(c)erto na periferia”.

E pra não chocar os mais sensíveis a frase no nosso portfólio abaixo do nosso nome é “A arte como caminho...”

***

Amo ser Radical Livre. Sempre achei que formávamos uma confraria espontânea, detentora da capacidade de debater qualquer assunto, com tal arrebatadora paixão que pudesse parecer, a quem nos ouvisse de longe, que estávamos a defender a própria vida naquela absurda argumentação. Porém, mal nos afastávamos uns 30 metros do lugar da disputa e já estaríamos a falar putarias benfazejas, sem pejo ou sentimento de culpa, pelas esquinas enviesadas da nossa suburbana san sebas.

Achei que, deste fervente caldeirão literário surgiria, é claro, o novo movimento cultural de Brasília e certos caras - que não posso citar aqui, pra não inflar os egos já devidamente assoberbados dos mesmos - viriam à boca de cena carregados duma pletora de erudição inconfundivelmente periféricas, dado o desordenamento mental natural em função da origem dos meliantes, porém, que vigor! E que tenacidade nos grunhidos prenhes de lucidez que estes selvagens ilustrados bradariam pelos descampados do altiplano.

***

Qual o quê! Uns tantos ditos radicais dotados de ultra-sensibilidade disseram não poder sofrer com tanta maledicência e, aos poucos, foram afastando-se do malfadado convívio com a língua de trapo daqueles que julgavam ser exatamente essa seca ironia, o mais fino biscoito produzido pelos Radicais Livres. O espírito revolucionário que movia essa parte dita diabólica dos grupo e que nunca foi entendida pelos ultra-sensíveis era, na verdade, a que construía, a que movia, a que tombava montanhas, a que revirava ruínas á cata de estranhos tesouros, a que se entranhava trágica no estudo da condição humana, sem medo de cair no ridículo de não encontrar deus no fim da extinta luz do túnel inesgotado, por serem donos de uma natureza brutal nunca jamais nem never more vencida pelos embates da guerrilha onde empunhavam corajosamente a espada cega da língua portuguesa em seus poemas e canções de próprio cunho.

Fomos, por conta dessa falta de pudor ideológica que nos guia, lançados como Daniel na caverna dos leões e lancetados no canto da jaula da luta partidária, pelos guardiões da verdade inexistente, por desrespeitarmos a ordem imposta pelos detentores da bandeira dita socialista já manchada pelo barbudo e outros asseclas pelo pragmatismo que permeia as maiores conquistas eleitorais dos últimos anos e, descortinando um novo horizonte de possibilidades enviesadas pela desestrutura da nossa desdidática desprovida de método, não sabendo que era impossível o que almejávamos, nós, os historicamente desalinhados, os ideologicamente desaparelhados, os metodologicamente desamparados, os filosoficamente descamisados, os boquirrotos, os palhaços, os bobos da corte nos tornamos, a pouco e pouco, a elite cultural do gueto sem saída

***

A preocupação com arte e cultura que deveria ser a tônica das nossas atividades perdeu força para as elucubrações político partidárias e ideológicas. A possibilidade dos membros terem variadas posições partidárias indo da esquerda à direita sem maiores empecilhos passou a ser heresia sendo vedada a mim, inclusive, a possibilidade de me filiar a um partido por conta de mesquinharias partidárias. Passou-se disto a um verdadeiro proselitismo em busca de fortalecimento de uma “tendência”. E então éramos dois monolíticos blocos lutando por posições dentro da Associação.

***

Chegou-se então a uma encruzilhada e eu, abrindo mão da minha naturalíssima verve diplomática, devo ser sincero, franco e rijo. Eu percebi que o mundo está aberto para nós, ávido de ser conquistado e regido, quando disse no hit “A Bola Azul” que “Serafins povoam minha solidão desgovernada, mas eu só vejo sombras e fantasmas desembainhando espadas” e denunciei que nós, habitantes do gueto, insistíamos em permanecer nesta eterna e maldita autovitimização, onde o dito “burguês” “em tese”nos exploraria e nos manteria debaixo do seu tacão pelo puro prazer de nos atazanar.


Palhaçada! Se nós o que queremos é ser burgueses e comprar um carro zero á vista! Babaquice! Paralisados no esquema que nos auto-impusemos, vivemos na órbita dos ídolos passadistas da bossa nova e da MPB e esquecemos que a melhor canção é a que pulsa inédita da nossa boca ressequida e o melhor poema é o que nós mesmos compusemos pra declamar cheios de orgulho no palco de madeirite erigido por mão-de-aço no lugar onde outrora havia um pelourinho na frente de uma senzala segundo Edvair Ribeiro e hoje se ergue um altar à deusa contradição.

***

Faço a revolução com meus companheiros há sete anos! Desde o momento em que pusemos aquelas duas caixas de som que mais parecia duas casas de marimbondo na rua e inventamos de ressuscitar a palavra sarau por esses rincões que fazemos a revolução. E, portanto, ela não virá porque já veio.

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Astuto, cauteloso, romântico, ilustrado e soberbo, um grupo mameluco se pôs de pé ás margens do rio São Bartolomeu na luta pela liberdade de ocupar os espaços públicos e falar brava e serenamente os mais belos poemas da língua pátria sem se importar com o déspota de plantão. E não há tempo para parar. Não há tempo para analisar se o que foi dito está direitamente dito ou se a desordem perpassou de alto a baixo o feito prejudicando o entendimento. Não espero nem mais um minuto por quem quer que seja que não tenha em mente que este é um movimento de libertação das amarras que nos prendem ao conformismo. Abaixo as imposturas! Abaixo a covardia! Abaixo a tergiversação! Avante, companheiros da primeira e da última hora. Franqueza e lealdade serão nossas bandeiras. Mas não nos deteremos diante do populismo que grassa em nosso meio. Se lasque doido. Eu quero é sangue. Eu quero queimar o bezerro de ouro do capitalismo no pátio do aquário bar. Eu quero enforcar os detentores dos podres poderes com suas próprias gravatas. Eu quero tomar o poder à força das nossas palavras e dá-lo aos destituídos de honra da comunidade. Vamos comer o banquete dos poderosos com as mãos. Vamos por os cotovelos descascados sobre a mesa dos déspotas e riscar poemas sobre a mesa de mármore dos príncipes de mentira que teimam em reinar sobre nós, os verdadeiros donos de tudo. Vamos ocupar sorrateiramente todos os espaços que os vacilões deixarem vazios, com inteligência, educação, competência e qualificação. Vamos bailar a valsa em seus salões e saborear seus petiscos misturando-nos ao ponto de confundirmo-nos com eles e quando menos esperarem, zás.

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Suporto tudo com calma e serenidade. Vide minha canção “O Minotauro Protestante” que está postada no meu blog Dagomeh.blogspot.com. Ali descrevo o alto grau de paciência que me acomete desde sempre e isto é fato comprovado por todos que me conhecem. Ali descrevo que a única coisa que me tira do sério é quando dizem que eu erro. Pois eu não erro. Eu não erro. Eu uso tons dissonantes. Mas há uma outra coisa que me faz perder a calma. É a burrice. Não a ignorância, que isso todos seremos sempre, por mais que aprendamos. Falo da incapacidade de entender que assola um sem número de pessoas que nos rodeiam. Como aquele personagem de programas de humor, o Saraiva, eu não suporto imbecilidade e hoje, a meu ver, este é um dos maiores problemas dos radicais Livres. A falta de leitura. A falta de estudo. A falta de entendimento do que se lê e se estuda. A falta de compreensão estética. Um outro problema é que eu não sei como acabar com esse problema. Um outro problema é que eu não posso dizer isso sob risco de ser tachado de preconceituoso. Um outro problema é que eu não gosto de parecer preconceituoso. Adoro parecer politicamente correto. Mas não sou. Eu penso barbaridades e teço maledicências, mas tudo em segredo. Eu sou mau.


Penso em voltar pra Bahia e recomeçar a ASD. Acho que ainda encontro minha velha lupa ou meu manual de caratê nos furos do muro da minha velha escola. Acho que sei onde meu amigo Zé mora. Devo ter o suficiente pra comprar aqueles walkie talkies...

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