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não sei que cousa é a paz

não sei que cousa é esta que em mim isto faz
não sei que cousa é a paz
quem tece estes fios?
quem urde a verdade?
quem impõe os deveres e inventa felicidades?

nem suponho o absurdo de que fala o meu vizinho
o que vem a ser a ciência?
quem ordena o sentir?
quem define o que é belo
e produz as ironias e comanda os martelos?

nem paciência me assiste que suporte tanta algema
quem em mim pôs tal diadema?
que vem a ser esperança?
quem dá ouvidos ao amor?
quem costura primaveras? quem nutre a carne da flor?

quem veio aqui com esta cousa de trancar portas à aldabra?
quem me diz tira esta barba?
de quem a história das artes?
que doudo deu-se ao criar dos ritos?
que diabo é um ideal? o que vem a ser um mito?


que tenho eu a ver com o que tu chamas meu mundo?
que sei eu da noite antiga
em que capto apenas que existo?
desadoro compromisso desconfio de alianças
tiro da alma os seus guizos e desmemoro a lembrança

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é claro que a reconhecereis

é claro que a reconhecereis quando chegar
pois trará luz a toda a volta e onde pisar
pois toda coisa certa estará lá
pois toda lua cheia
pois toda lua nova
alumiará

com ela a alegria dura dura dura dura dura
mesmo que a noite seja escura
a luzazul que sobe dela é muito pura

é claro que a reconhecereis quando a virdes
pois dialoga sem palavras com a loucura
o sol à beira dela tem uma cor escura
fica sem fala quem a vê
tamanha a formosura

com ela a alegria dura dura dura dura dura
mesmo que a noite seja escura
a luzazul que sobe dela é muito pura


e é claro que sabereis de quem se trata
empresta brilho às estrela e som às serenatas
seu dorso protegido pela vasta cabeleira
silencia todo som
otimiza o que é bom
de toda a maneira

com ela a alegria dura dura dura dura dura
mesmo que a noite seja escura
a luzazul que sobe dela é muito pura

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o mantra que recito sem convicção

o mantra que recito sem convicção alguma
vira profissão de fé se você se aproxima
bonita como fora propaganda de cerveja
tranqüila como filme rodado em câmera lenta

o vento dá nas arvores do outono em desalinho
brasília toda seca e a pele quase range
mas quando linda você surge ao fim da comprida rua
mangueiras jorram pletora de água em meu quintal

posto porém que o passado me conduz ao cadafalso
e posto que o meu futuro seja uma interrogação
e posto que o meu presente passa desapercebido
suponho que estou fadado a viver neste desgosto

mas quando você se arruma e põe aquele tamanco
que coisa mole e tola rocambolesca que eu viro
o terço que desenrolo com preguiça pelos dedos
torno objeto milagroso se em você permaneço

carrego grossa corrente no pescoço sem alento
acontecem chibatadas do destino eu lamentoso
mas quando você sorri encostada ao parapeito
da janela do teu quarto sou o próprio dalai lama

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esse frio gelado na espinha


esse frio gelado na espinha
esse arrepio esse presságio
esse prenuncio essa promessa
é vaticínio ou é recado?

essa mensagem esse enigma
essa garrafa essa cisão
e a profecia neste sonho
búzio ou adivinhação?

e esse silêncio pressuroso
e essa canção de puro agouro
e o vôo baixo desse corvo
boa sorte ou só desdouro?

e esse carteiro ranzinza
que telegrama trará?
e o olhar dessa vizinha
que segredos guardará?

e aquele pombo correio?
e essa coruja sem graça?
e a minha caixa de e-mail
com essa vela
e esse charuto
e essa cachaça?

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não sei se é madrugada




não sei se é madrugada ou mesmo quatro da tarde
não sei se mudo pra minas ou peço que você me aguarde
numa rua da Bahia ou na casa do caralho
não sei se jogo xadrez ou se como pão com alho

não sei se entro num site que fale de culinária
ou se convenço stédile de que a reforma agrária
é uma grande tolice talvez ligar pra você
ver um filme de fellini meia noite na tevê

não sei se compro um revolver nem sei se resolveria
se eu tomasse chá de tarde na sua casa maria
ou se talvez me mandasse pra vitoria da conquista
ou comprasse óculos novos que estou tão ruim da vista

tanto que não enxergo um palmo adiante do nariz
eu queria ser é triste mas me acho tão feliz
por não ter opção certa nem saber o meu lugar
eu sou o que der pra ser e vou pra qualquer lugar

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meu coração a sós comigo


meu coração a sós comigo no ofício de produzir
cem quilos de nostalgia se você não esta aqui
porem se você estivesse ao pé de mim do meu abraço
cem quilos de nostalgia e mais duzentos de fracasso

e é claro que eu te amo mas isso não interfere
no tamanho do comboio que transporta pela bê-erre
o vazio sonho morto que cultivei quarenta anos
e depois era o deserto e a teia dos desenganos

e por isso onde quer que eu esteja ou não esteja
o meu amor reverbera e a minha alma te beija
mas não me queiras tranqüilo e nem me fales em paz
que meu coração cheira a blues e ignora o jazz

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luz e sombra


luz e sombra brincam no quintal
onde meu abacateiro floriu
sol e vento penteiam seus cabelos
num momento parece que sorriu

só na minha retina dissonante
o silencio faz muxoxo e diz psiu

água e terra ajuntam-se portanto
onde minha laranjeira quis nascer
primavera e outono ciclo a ciclo
fazem-na renovar e florescer

no deserto do deserto do deserto
minha alma foi se estabelecer

feio e belo calor frio luz e onda
fauna flora jesus e belzebu
todos com seu cantinho no universo
mal e bem balet e maracatu

só meu cálix desfoca do epicentro
no desvão meio a leste da asa sul

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vem logo velhice


vem logo velhice vem logo morte vem logo após
venha o que tiver que ser que eu quero ver logo os nós
que há para desatar onde sou meu próprio deus
e de mim meu próprio herege e de mim meu próprio ateu

vem logo consumação vem desgraça vem juízo final
sou meu próprio advogado sou meu próprio tribunal
sou meu próprio algoz sou lâmina e guilhotina
sou espingarda e punhal eu sou minha estricnina

vem cristo vem dom Sebastião vem Apolo vem elias
vem apocalipse vem guerra nuclear no ventre de mil ogivas
eu sou minha bomba h sou meu dia d sou meu raio x
quero a próxima fase quantas são as minhas vidas quem é aquele que o diz

venham prazeres e horrores o que alteia o que oprime
sou minha própria sentença como sou meu próprio crime
venham para o desafio que vos fiz e que renovo
que mesmo covarde sendo não temo não eu não temo pois o jugo desaprovo

seja inferno ou paraíso eu sou meu próprio destino
sou teu eterno oponente no combate que abomino
venham ao centro da terra ao coração dos infernos
vamos ao cu do abismo no núcleo do mais interno

vamos se há deuses e demônios se há magia e candomblé
quero ver como é que fica quero saber qualquié
cruz de Hitler cruz de caravaca cruz de malta credo em cruz
rosa-cruz maçonaria astrologia dez mil espelhos sem luz

bebo a porra de teseu dou o cu ao minotauro
chupo o cacete de Zeus cago no pau de um centauro
cuspo no santo graal de alguma forma é possível
constranger-vos deuses tolos falanges do incognoscível

bato na cara da morte mesmo tomado de horror
mas eu preciso saber porque preciso saber quem sou e pra onde vou

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para sempre a tortuosa via



para sempre a tortuosa via angustiada em frente
e ocasionalmente eu saberei dizer-te
que a verdade é o espinho em minha carne e mente
minha vil boca ante o impossível flerte

pois entre mim a e a verdade eu juro
que o desejo intimo que me acode o ser
é ser seu súdito de peito aberto e puro
o coração desejaria ter

mas sou hipócrita e falso e minto
descaradamente até pra minha mãe
e descaradamente eu minto pro meu filho
e minto tolamente pra quem quer que me acompanhe

e teço ironias e cuspo maledicências
e falo do vizinho que me emprestará
o ultimo dinheiro para o leite do seu filho
e intimamente mando-o para aquele lugar

depois choro no chão frio do banheiro sujo
da lama que escorre do meu mesmo coração
e quebro a louça pobre do armario e fujo
pro fundo do quintal pensando porque não

ter pena de mim mesmo e dó dos meus filhinhos
e ser um pai zeloso e filho e esposo e irmão
e ir pro meu trabalho e ir pra minha escola
e ir porra nenhuma nesta sem-razão

nenhum lugar me espera nenhum suficiente
nenhuma coisa alguma em nada há de haver
o espinho em minha carne arde como brasa
na via angustiada em que devo morrer

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mas como a fenix ressurge das cinzas



mas como a fênix ressurge das cinzas ao fim de um período xis
e como o urso acorda no fundo da gruta após o período da hiberna
retornarei nalgum ponto do tempo pra ter a vida que eu quis
entre os amigos eleitos na cidade escolhida numa estrutura moderna

com leis escritas no peito com o laser da consciência grega
plus ultra contemporânea numa urbis multi completa
com automóveis flutuantes em vias via de regra
sem os habituais solavancos de minha triste sina de poeta

levitarei pelas ruas com meus patins voadores e num laptop virtual
escreverei meus poemas numa metalinguagem interplanetária de sete caracteres
ciclistas voarão ao longe escolas virão em chips e como é natural
alimentos comprimidos vestimentas descartáveis e programáveis mulheres

pinga diet sexo light comprimidos do mais puro oxigênio da Amazônia
livros em dedais celulares de pulso computadores de bolso maravilha de país
é onde vou acordar da hibernação que farei na mais completa insônia
junto com meus camaradas como a fênix ressurge das cinzas ao fim de um período xis

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