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isaac mendes interpreta encaro o eixo às seis da tarde de dagomé


encaro o eixo
às seis da tarde
dispenso de nossa senhora a proteção
enfrento a torre embriagado
pela certeza de não ter convicção

não tenho medo da presença
da nostalgia nestes descampados
tenho nobreza e fidalguia
para enfrentar as hostes dos malvados

só não tenho força
quando o teu olhar
pede em silencio
o que eu não posso dar

o dom da certeza de um final feliz
eu não sei... eu não sou... eu não vou... eu não quis

disparo balas
destemperado
sobre os fantasmas
e os fantoches da nação

que nunca passa desse estado
de coisa prenhe de miséria e opressão

saco meu colt
incoerente
e meto bala
nestes desgraçados

eu tenho a espada dos analfabetos
e empunho o escudo dos injustiçados

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sem vc eu atravesso o eixão olhando somente pro chão



sem você
não sei o que fazer
eu perco o sono
eu perco o senso
e a direção
sem você eu atravesso o eixão olhando somente pro chão

sem você não sei o que dizer
eu perco a fala
eu perco a força
e a razão
e percorro toda a w3 sem ver que estou na contramão

estou tão só
estou tão só
que eu evito a torre de tevê

sem você eu atravesso o eixão olhando somente pro chão

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a casa do carái


eu tenho uma necessidade lascada

de beijar tua boca rosada

eu tenho uma necessidade da porra

de que voce me socorra

e que me salve de mim

que eu tô com uma puta vontade

de mudar para a eternidade

não por força da merda do destino

mas por ato da minha vontade

então tô com u'a necessidade louca

de te dar um beijo na boca

e me ter entre os teus abraços

e te ter no abrir do compasso

é esse agora o meu desejo oxente uai

e que tudo o mais vá pra casa do carái




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isaac mendes canta amor perfeito de dagomé



eu amo tudo que vem de voce

amo seu cepeéfe e seu erregê

os seus antecedentes criminais

e a sua ficha no essepeçê



amo sua vida pregressa

e o seu curriculum vitae

seus boletins de escola

e a sua conjuntivite



amo as pelotas que saem do seu nariz

amo as remelas que estão no seu olhar

amo seu hálito bem cedo de manhã

quando voce insiste em me beijar



e eu amo tudo que voce quiser

amo sua mãe pegando no meu pé

eu acho seus parentes tão legais

e as suas flatulencias são demais



e eu amo tudo que voce pedir

ah! como eu gosto de arroz com pequi

eu como seu jiló e peço bis

eu cheiro seu sovaco e sou feliz

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eu penso não sou humano




































olhando o povo em torno e vendo o dentro deles
os músculos e entranhas e as almas todas reles
e sendo olhado neles como igual e dissidente
eu penso não sou gente
eu penso
não sou
gente

e olhando as coisas todas com que eles se revestem
carteiras celulares chaves eis que me advertem
usando os apetrechos que eles usam com capricho
eu penso sou um bicho
eu penso
sou um
bicho

e observando os modos medos mudas convenções
que usam como escudo e utilizam como arpões
eu saco as mesmas armas com que massacro meus manos
e penso não sou humano
e penso
não sou
humano

e atravessando a vida cuidoso de todas essas manias
que os cadáveres colegas carregam em agonia
sempre mais me ausento dela em sua humanidade chinfrim
e penso não sou daqui
e penso
não sou
daqui

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impalpável mulher na voz de isaac mendes


Possuo uma guitarra medieval não tenho musa e desconheço a inspiração
sou preguiçoso e covarde tarde acordo mordo devagar meu pão
e tenho o coração atado bardo tardo fado fardo a me tolher os pés
como assumir a poesia essa dama fria que me vê de viés

Mas nunca estas onde estou baby
Mas não fecundas meu ser lady
Mas não desatas minha língua
mata-me à míngua impalpável mulher

Combato meu mortal combate vate arte em parte em parte artesão
recorto meço traço apalpo despedaço amasso e é sempre tudo em vão
Às vezes cedo à vaidade é tarde desvelar-te é como desnudar-me ao invés
Prolongo teu mistério ó dama glacial meu mal é não ter voz nem vez

Amparam-me estas parcas gotas tetas tuas fartas vastas leite ideal
e o dás a escolhidos lidos bem nascidos tidos como coisa e tal
Tenho ciúmes circulo incompleto poeto por certo invejo menestréis
Meu canto aborto afoito sigo ó ser polar absorto em descobrir quem és

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a casa desilusão

















sobre o chão do egoísmo a mesa da indiferença
e a toalha do orgulho sob o jarro da descrença
e esta flor hipocrisia
nesta sala sem amor
abrem portas e janelas pra que entre a desavença

rego a grama do quintal
com um pecado capital
cuido do encanamento
com uma dor e um lamento

e quanto à parte elétrica
uno os fios da mente cética
à tomada intolerancia

com o martelo do racismo
na mão da condenação
prego o quadro preconceito
na parede ignorancia

forro o teto com tristeza
no piso desatenção
nas paredes xingamentos
nas janelas palavrão

assim é que se constrói
a casa desilusão

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maria joana


já não me escondo entre os teus lençóis
já não me encontro entre os teus serviçais
não submeto os sons da minha voz
aos teus sinais

nem tão futuras nem tão atuais
estas cantigas são meus embornais
onde guardei meus lápis e pincéis
meus canibais

já não acendo a luz dos castiçais
ao mero rutilar da tua voz
não conto entre os quinze menestréis
que comandais

já não carrego os pratos e os cristais
pros teus banquetes sobrenaturais
já não preparo carruagens e corcéis
nos teus quintais

não és meu dono nem meu capataz
teus tiques não me incomodam mais
não me comandas como coronéis
ou generais

não sou teu potro de uso pessoal
não cedo aos teus impulsos animais
não mais me curvo pra lavar teus pés
não... nunca mais...




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eu podia ter sido gil


que eu podia ter sido gil
tenho verve para tal
talvez com a óbvia exceção
do talento musical

que eu podia podia
mas tudo é tão desigual
porque então não nasci
qualquer coisa como gal

não tenho a voz é verdade
nem a beleza fatal
mas o sotaque eu já tive
etecetera coisa e tal

eu podia ser betânia
meu bem meu zen meu mal
estar do lado que é lado
e não no da fome total

que eu tenho os cabelos crespos
e nasci na bahia afinal
também podia ser caetano
tenho verbo para tal

impávido muhammad ali
esperando em meu quintal
que o índio descubra o lençol
que cobre meu dom natural

de afinal ser quem eu sou
denorex zero cal
os meus cabelos podem não ser os mesmos
mas fiz o meu comercial

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o minotauro protestante


Você fica pilhada quando eu erro
Mas eu não erro eu não erro
Eu uso tons dissonantes
E eu não me acostumo com seu berro
Eu me lanho eu me ferro
Mas não mudo meu semblante
E principalmente estou falando sério
Um decibel não altero
ante um fato angustiante
Mesmo que eles me ponham a ferros
Eu to lhe sendo sincero
Sou como quem toma calmantes

Eu protegi a obra de Homero
Das águas num outro hemisfério
E já na cordilheira dos Andes
No quarto escuro de um monastério
Eu decifrei seus mistérios
Depois banhei-me no Ganges
Parti numa caravela com Antero
Por conta de uns bucaneros
Que nunca leram Cervantes
Mas que traziam no espírito férreo
O fogo fátuo etéreo
Dos cavaleiros andantes

E eu consumi tanto ópio com Nero
Que eu disse pêra e ele eu num pero
E com o olhar delirante
Pegou da tocha do gás e do isqueiro
Que quando eu cheguei no terreiro
O fogo tava era longe
Com toda calma que os deuses me dero
Eu disse Nero eu espero
Conforme eu já lhe disse antes
Que você me esqueça e me erre não quero
descer na cova de um cemitério
Como cúmplice de um meliante

Cuspindo eu apaguei o fogo do inferno
Vesti o minotauro num terno
E ele virou protestante
Calei a boca da noite com um berro
Pus no capeta um sombrero
Mas serrei os chifres antes
O dalai lama quase perde o ministério
Pois ele saiu do serio
Num dialogo impressionante
E eu calmo como um camelo e sincero
Disse o teu cargo eu não quero
Quero é o teu lado arrogante

Sou como um seguidor de lutero
Eu desde o útero quero
a paz de um qualque4r ruminante
Sou um Buda baiano e me esmero
Em crer que não desespero
mesmo enfrentando gigantes
E mesmo partindo do marco zero
Eu paro eu penso eu pondero
e vou seguindo adiante
Mas quando você fala que eu erro
eu grito eu erro eu não erro
Eu uso tons dissonantes

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femea


porque me treme assim a perna quando penso no futuro
e as luzes que enxergo mais me cegam que me guiam?
Se no olho do ciclone está o cu da calmaria
Onde estão os mecanismos que aciono e me aliviam?

Porque me dói tanto o peito quando o ócio me domina
E enxergo com clareza o que se embota na labuta?
A dor cava meu coração com a lamina da enxada fria
Mas a angustia aguça a audição e coloca-me à escuta

Das lágrimas que oculto suas formas estalactíticas
No âmago da divisão entre a alma e o espírito
Forçando-as a revelarem-se no epicentro do mistério
Derrubando torres pontes parapeitos totens mitos

E eu aqui nessa agonia as quatro e quarenta e quatro
Relacionando os porquês nesta lista heterogênea
Vejo aportar madrugada na contemplação do não visto
Não tendo tocado um dedo na que dorme ao lado fêmea

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eu torço o som que voce aprecia


eu torço o som que você aprecia
eu ouço só o som que não vai bombar
eu curto música progressiva
mas paro de ouvir se você gostar

gosto de ser underground
ser underground
mas todo mundo entende minha poesia
eu quero ser hermético e marginal
mas todos curtem o refrão das minhas melodias

quero ser Andy warrol ser Andy warrol
mas eu não passo de um funkeiro de periferia
eu quero ser maldito e saio no jornal
como a mais nova sensação do dia

instalações e fotografia
dança contemporânea dadá bauhaus
art noveau concretismo e cia
os irmãos campos teoria do caos

gosto de ser underground
ser underground
mas todo mundo entende minha poesia
eu quero ser hermético e marginal
mas todos curtem o refrão das minhas melodias

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estanho derretido entre as pernas da mulata


estanho derretido entre as pernas da mulata
e os peitos mais perfeitos que essa rima insensata
e as putas todas rindo da performance inexata
do meu sexo impoluto todo de terno e gravata

a garoa nas calçadas impinge um brilho de prata
e eu debaixo das cobertas como sardinhas em lata
beijo tua boca vulgar e a tua vulva barata
recebe o membro cachorra e o esguicho de porra farta

e volto de madrugada pra casa prenhe de esparta
pro travesseiro de pedra pro aço do laço que ata
minha desalmada alma que pensa que morre e mata
a mina em que tua bondade lentamente se dilata

metálico-mental mefisto me manuseia e me arrasta

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o coice da serpente


o coice da serpente a principio amolou meus lábios e
ignorando o cenário onde ela se punha senhora e de muxoxo
aproximei-me viscoso e consciente
da inferioridade dos meus dotes naturais ante aquele
desperdício de beleza
desprovida dos palcos e das luzes merecidas
e
calado
ante tanta formosura
(o arco das suas sobrancelhas duas mulheres gozando)
falei tanto
que meu mestre gregorio desistiu do seu oficio num momento
e até cri
e tive muita fé em deus
e nos cantos entoados nos terreiros da minha terra
quando a vi nuanuinha
e à luz dos candelabros prateados
invoquei mãe menininha
valei-me
que os bicos dos seus peitos suscitam nos meus ouvidos
o zunido de mil buzinas de guerra
no alto da laje fria
que calor e que tormento
a curva do seu lamento
ao receber-me em seu dentro
voluptuosa venus agridoce
no meu palato aterrorizado
que boceta meus deus que descalabro
que descuidadas todas as outras mulheres
quando embaracei-me ali
no torvelinho do seu baixo ventre
e quis que jamais deles me livrasse
refém dos seus braços poderosos
do seu trono
do seu viço
dos seus truques baronesa dos infernos
suplico teus favores
me deixa beijar tua bunda durante trinta mil eras
oh ogiva nuclear
no centro dos meus sentidos
clareza do amanhecer no taquaral onde os faunos
escondem todo dia
só para vê-la banhar-se
fada sem ser boazinha
exu egum jaguatirica égua
que os deuses me orientem
com bússolas estelares
no vão entre as tuas pernas
pra que eu não saia demente
pra que eu não saia doente
das faculdades mentais
quando sugar tua seiva
e o mel nos cantos da boca
queixo orelhas nariz
me fizer teu serviçal

e eu querer mais
querer mais
do teu crack divinal

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eu sou a pestilência que vos maltrata e agride


eu sou a pestilência que vos maltrata e agride
o mal que a todos assola a dor que em todos incide
com minha alva caveira e minha negra roupagem
e a minha foice afiada eu recomendo: coragem

sou o prenúncio do inicio de tudo que lembra o nada
o sinal da agonia da alma desmemoriada
o principio da frieza e da consciência perdida
da perda da cor do fim do sabor da ausência da vida

da longa viagem sem volta por entre terrenos baldios
e bosques sem natureza no fundo dos olhos vazios
e múltiplos odores fétidos que se sucedem no espaço
oriundos da putrefação dos corpos que perdem pedaços

e vagam silenciosos na cósmica inconsciência
da retina inexpressiva do cérebro sem ciência
eu quero você gemendo e sem poder revelar
que está me olhando nos olhos mas quem ia acreditar

mas você não tem mais tempo chega de tanta asneira
não vamos falar agora do que evitaste a vida inteira
só quero você comigo nos pântanos da solidão
nas florestas amaldiçoadas por corpos em decomposição

de fantasmas alucinados por sangue e destruição
eu quero ouvir teus gemidos suplicando compaixão
quero teu ultimo respiro teimando em resistir
teu nome no obituário será um prazer em fim

os lamento por você me serão tão prazerosos
os teus parentes chorando dão-me estertores gozosos
a terra na tua cara meu caro é bom demais
e eu tô chegando de lado por cima por baixo e por traz

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marcado está meu coração


marcado está meu coração ó mestre
como escapar à dor...
mas se esta mesma dor me faz ser forte
quero ser super
ser superior

deserto está meu coração ó mestre
sem rei e sem senhor
meu coração acha que se basta a si
silencio e solidão
ao meu redor

errante vai meu coração ó mestre
sem porto e sem navio
não tenho âncora... nem vento... nem vela...
meu coração é quase
um cão vadio

o caos põe ordem no meu coração ó mestre
nada me seduziu
gasta a palavra diz um quase nada
meu nome é
desvario

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tocai-me a valsa dos apátridas

tocai-me a valsa dos apátridas
na pátria dos retirantes
os que se chamam sem-terra
vagam por mil horizontes

mainha eu estou com fome
mainha eu estou com aids
mainha eu estou com tédio
mainha eu estou covarde

matemos todos os deuses
é a derrocada das regras
deus abstração necessária
não me forneça muletas

invento minha própria linguagem

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