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Dez Reais




Dá-me um beijo na boca
eu tô carente pra dedéu
eu acordei tão tristinho
o vinho ontem me embebeu

que parecia que o planeta
girava embaixo dos meus pés
e eu tô com pouco dinheiro
eu tô com uma nota de dez reais

Dá-me um abraço bem forte
cortejemos a manhã
vamos sair pela rua
a tua companhia é sã

mesmo coma minha teimosia
de poeta sem requinte
çê também tem dez reais
e juntos nós já temos vinte reais

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Sobre Priscilinha


Priscilin

é tão feminina
a minha menina
é tão coisa linda
minha sinhazinha

ela dita ao sol
a cor do seu brilho
ela ensina ao brilho
lições de farol

e é tão-tudo-tanto
na sua preguiça
é a coisa mais linda
minha mina de encantos

zeus teceu caracóis
sobre o lindo crânio
densa tensa pensa
que é xangô/iemanjá

é também tão felina
a minha gatinha
e argumenta com graça
que isto assim não se diz

ela ensina ao vento
dispersão e unidade
ela transa pureza
ela saca maldade

é minha sinhazinha
ela não tem idade

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a bola azul

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num momento éramos nós


num momento éramos nós na mesa do restaurante
bossa nova em surdina
e outros babados mais

depois o anjo do senhor tocou a sétima trombeta
um terço do sol escureceu bem como um terço
da lua das estrelas
o abismo abriu-se
e dali saíram nuvens de fumaça dentro
da fumaça gafanhotos que flutuavam não
sobre capim mas sobre a alma dos homens
despindo-os subitamente dos seus disfarces
morais dos seus hábitos ancestrais
dos seus cuidados matrimoniais
da sua fé hipócrita do seu nacionalismo
fabricado nos quartéis das ditaduras
da sua pseudo-ética
da sua prisão estética da sua jaula política
do seu analfabetismo amoroso
do câncer da guerra e quando lúcia chegou de braço
dado como amin o espírito dos ancestrais
dos índios mongoiós que beberam durante séculos
das águas do poço escuro no sopé da serra do
peri-peri no alto sertão baiano já nos haviam despido
das nossas roupas
pintaram nossos corpos mortais com urucum trazido
da roça de um velho índio morto na lagoa das flores e já teu corpo formava
um arco sobre o frio do azulejo branco do conjunto
nacional num orgasmo multifacetado enquanto
os flashes espocavam e acabava de chegar um
repórter do dêéfetevê para presenciar o grito
que borbulhava em tua garganta mediúnica
quando meu filho acordou dizendo tá sonhando pai
depois a madrugada era uma foto em preto e branca
muito branca era tua mão sobre o meu sexo

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antigamente o homem inventou o tempo


antigamente o homem inventou o tempo
querendo medir o espaço
entre o raio e o trovão
e descobriu-se finito
como o espaço entre o trigo
e o pão

então inventou ele a consciência
para definir o espaço
entre o que pode e o que não
e descobriu-se moral
naquele estreito entre o herege
e o cristão

depois ele inventou deus
recheou-o de atributos
entre a bíblia e o alcorão
entre moisés e maomé
pôs jesus de nazaré
impagável ficção

depois inventou o amor
na ânsia de cercear
os desejos do coração
e descobriu-se perdido
como uma língua sedenta
entre a ferida e um velho cão

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estou sentado na sala


estou sentado na sala
nu com meu poema
pus a cabeça à mão direita
estou pensando em me matar

tu entretanto
arrumas o tripé no vão da alma
apontas a objetiva em meu silencio

estou com as pernas cruzadas
nu com minha calma
pus o poema à mão esquerda
estou pensando em o queimar

tu porém
testas o foco pra fixar a luz do eco
espocas flashes nos calendários siderais

estou em pé no hall da história
nu com minha culpa
trago à mão direita uma ampulheta
estou pensando em alisar os teus cabelos

tu contudo
no vão etéreo dos guarda-sóis de tuas luzes
focas pra dentro o negativo do teu próprio ser

estou de cócoras sobre o mundo
nu com minha pena
o chão se deixa escrever sob meus dedos
estou pensando em teu sexo

tu todavia
preparas o cenário ilusório dos orgasmos
estendes o edredon sobre o abismo e flutuas

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bela é a tua alma moral


bela é a tua alma moral
mais bela é a alma da cortesã
belo é o teu verniz cultural
mais belo o erro léxico da não sã

belo é o teu discurso político
mais belo o sex-appeal da prostituta
belo é o teu non-sense apocalíptico
mais belo o temor religioso de uma puta

bela é a tua verve ética
mais bela é a ignorância da teúda
bela é a tua entonação fonética
mais belo o sotaque com que a mundana me saúda

belo é o teu olhar aristocrático
mais belo o cílio negro da ordinária
belo é o teu sorriso prático
mais belo o sorriso democrático da perdulária

belo é o teu porte altaneiro
mais belo o batom da boca da bandida
belo é o teu aparte zombeteiro
mais belo o nome feio na boca da mulher da vida

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por dentro as minhas vísceras


por dentro as minhas vísceras
esôfago
estômago

sem alma
sem alma
sem alma
sem alma

por fora a minha pele
pêlos
unhas

sem alma
sem alma
sem alma
sem alma

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ave rara


ave rara
em te conhecendo
quem te não amara?

alma clara
quem te encontrando
o mais não detestara?

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trombose na minha língua


trombose na minha língua após teu sexo farto
e o membro com reumatismo meu dedo nunca foi casto
e a correnteza a fluir do teu íntimo devasso
e o som já característico do meu no teu ventre de aço

e o pássaro da juventude esperando o nó do laço

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o meu futuro é um cadáver



o meu futuro é um cadáver espichado no convés
de um barco abandonado ao capricho das marés
passam ilhas e arquipélagos e eu desnatural de mim
não me encaixo na moldura de madeira ou de marfim

desce a chuva sobe o sol mar e céu tudo é antigo
mas o abismno de ser eu não se ausenta de migo
e a todo momento a culpa de ser ateu ou cristão
sempre na linha de frente da dura competição

e a embarcação segue a esmo sem fantasma a assombrá-la
não acha praia nem porto por isso mesmo não encalha
que as tuas areias não possuem a ideal densidade
ou desviei-me da rota ou então perplexidade

***

...não é nada disso de mar e céu e sol e embarcação
o meu futuro é uma velhinha que faz crochê na prisão
como ninguém a visita e como tem pouca linha
assim que acaba o trabalho ela o desfaz e principia...

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