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Tédio Blues - com amor à baianidade


Hoje eu não saio dessa cama
Eu não tiro esse roupão
Hoje eu não quero compromisso
Eu não tenho condição
Eu me recuso a ser sincero
Eu me recuso a ser moral
Hoje eu não tiro essa barba
e não leio esse jornal

Eh, mãe... Eu não tenho condição...
Eh, mãe... Hoje eu estou tão down

Hoje eu não vejo a novela
Nem uso creme dental
Hoje eu não troco a cueca
Etc. coisa e tal
Hoje eu não faço dieta
Hoje eu vou lhe tratar mal
Hoje eu quebro esse espelho
E não assisto esse canal

Hoje eu mato esse cachorro
Hoje eu cago no quintal
Hoje eu não arrumo a cama
Hoje eu me enforco no varal
Hoje eu rasgo essa bíblia
Não tomo café com pão
Hoje eu não saio na rua
E Não ouço legião

Hoje eu dou nesse carteiro
Hoje eu xingo meu patrão
Hoje eu bato em minha sogra
E maltrato seu irmão
Hoje eu enforco a empregada
Com a fita do avental
Hoje nem a Vera Fischer
Me levanta o moral

Hoje eu mato esses meninos
Hoje eu tou muito retado
Hoje eu rodo a baiana
Hoje eu xingo de veado
Hoje nem mainha escapa
Eu to virado no capeta
Pra eu meter a mão num corno
É só se fazer de besta


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Lá vai São José - com amor para a CCB




Lá vai São José, levando sua mulher
E um jumentinho já velho
Deixou o seu torrão, rendeu o coração
À força do evangelho...

Enquanto isso eu perco o senso e a direção
Em trilhas quase esquecidas do meu coração...

Se tento ser quase um soldado
Sou bêbado como Noé!
Mirando espelhos tão quebrados quanto a minha fé!

E olha lá Davi, tocando aqui e ali
As ovelhinhas de Jessé...
Mas para ser rei, deixou a antiga grei!
Matou gigantes por Javeh!

Enquanto isso o absurdo é minha lei!
Pois quase sempre sou quase sempre o que não sei...

Eu perco peso, eu perco sono,
E a filha de Jefté
Morreu tão virgem quanto a minha chance de vencer!

E olhem Daniel a desnudar o véu
De babilônicas místicas!
Faz sua oração e achou no coração
Lógica na metafísica!

Mas eu me ocupo do corpo e culpo a situação
Por meus temores na noite escura! Treva e trovão!

Meu pulso pesa, o pé vacila
E a natural timidez
Me prende a voz, me turva a vista e eu perco a vez...

E lá vai Jesus, nas ruas de Jebus
Como quem sabe o caminho...
Ao servo e ao capataz, lições de amor e paz
A dor e os seus descaminhos...

Eu nem me enxergo no túnel onde a luz sumiu!
Esmurro a ponta da lança que teu peito abriu!

Eu quase sempre... Ás vezes... Nunca!
De vez em quando... Talvez...
Creia que haja uma saída pra essa insensatez!

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teu nome é doce favo de mel - com amor para Jesus



teu nome é doce favo de mel
teu olhar puro azul do céu
tuas verdades penetram como espada
nas madrugadas tua voz é canção

no teu silêncio consigo achar
lições de vida cores no ar
novas nuances formas novas de amar
não foi acaso que te encontrei

te amo como o mar que não
cansa-se da areia buscar
te amo como o colibri
a flor não cansa de beijar
te amo como o sol não cansa de nascer toda manhã

meu corpo débil meu coração
minha poesia minha canção
dou sem reservas nessa união
nada se cobra se perde ou se cai

os teus desejos realizar
tuas vontades satisfazer
eis o meu alvo meu ideal de vida
amo-te mais do que nunca jamais

teu nome é Jesus
nome doce qual favo de mel
não quero outro amor
só você me transporta ao céu

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equilíbrio




equilíbrio?
em que livro?
se me livro
sobrevivo
sempre vivo
se me privo
busco algum remoto alívio em  meu desequilíbrio

não me esquivo
do ambíguo
entretanto sigo
entre abismos
lavro livros
vagos vídeos
de cultura  sou mendigo mas eu finjo que não ligo...

cocares de um morrer injusto sempre vejo aparecer
no vidro baço
vídeo lasso
vinho fácil da tevê
preserve-se a pele cara vária rara flora fauna
mas não se esqueça peça ceci por peri ou serão parias

havia uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho havia uma pedra
e as vozes avisaram várias vezes a vocês
removam a pedra
removam a pedra

morto vivo
fera uivo
gasto grito
fugitivo
sempre ativo
pedra e liquido
putrefacto insano inseto sob as fezes do anticristo

marx cristo
krishna atrito
triste lenitivo
sacro cínico
verso tísico
vate ínfimo
auto líder auto crítico meu enfado é o fado intrínseco!




















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Encaro o Eixo - com amor à banda Depois do Começo







encaro o eixo às seis da tarde
dispenso de nossa senhora a proteção
enfrento a torre embriagado
pela certeza de não ter convicção

não tenho medo da presença
da nostalgia nestes descampados
tenho nobreza e fidalguia
para enfrentar as hostes dos malvados

só não tenho força  quando o teu olhar
pede em silencio o que eu não posso dar
o dom da certeza de um final feliz
eu não sei... eu não sou... eu não vou... eu não quis

disparo balas destemperado
sobre os fantasmas e os fantoches da nação
que nunca passa desse estado
de coisa prenhe de miséria e opressão

saco meu colt incoerente
e meto bala nestes desgraçados
eu tenho a espada dos analfabetos
e empunho o escudo dos injustiçados



Amostra grátis da banda Depois do Começo com Gugu, Chiquinho, Rodrigo, Juninho, Kilbert, Roberto e Dagomé.

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Dizer Não - com amor para Dagomé



ser súdito das sensações
não faz de mim vassalo seu
não obstante eu não consigo dizer não
ao mínimo capricho
eu perco o equilíbrio
palavra eu não consigo dizer não

dizer não
palavra eu não consigo dizer não

os meus amigos falam muito
que nós temos pouca voz
que as pausas e os silêncios são pra nós
negroide anão e nordestino
quero emitir opinião
pro macho adulto branco dizer não

dizer não
palavra eles só sabem dizer não

as luzes dos apartamentos
asa norte asa sul
vejo sumir pela janela do buzu
meus olhos suburbanos
forjados pra dormir
o sono dos injustiçados quero abrir

e dizer não
palavra eu preciso dizer não

eu passo pelos condomínios
e chego a são sebastião
você na porta do barraco conceição
a minha pinga é o champanhe
minha marmita é o faisão
e o meu suor é o descanso do patrão

dizer não
a vida inteira e eu não consigo dizer não




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Ai Minha Neguinha - com amor para Nanazinha


se vc for vasco eu não vou ser flamengo (no máximo vou ser tricolor)
se vc é picasso eu nunca fui matisse e não entendo nada de cor
se você for freud lasque-se jung você vê novela odeio futebol
você  é do pagode odeio caetano como detesto rock’n’roll

ai minha neguinha
minha kriptonita minha kriptonita minha kriptonita

se você for prosa o que é a poesia diante do proseador
se você for lógica é lógico que o instinto é coisa que não tem valor
se você quer praia minha alma é marinha se você navega sou seu computador
se você deseja eu moro numa lâmpada inteiramente ao seu dispor

ai minha neguinha
minha kriptonita minha kriptonita minha kriptonita

se você é sivuca acho que o albino hermeto não saca nada de acordeon
cê adora dali nasci surrealista de sobrenome salvador
você vê comédia eu caio na risada cê gosta de anúncio eu sou de luz neon
se você só gosta de usar natura eu nunca vou usar avon

ai minha neguinha
minha kriptonita minha kriptonita minha kriptonita

você quer sushi eu só como feijoada sob tortura e muita dor
você vai na feira eu acho que shopping center é coisa de burguês gastador
ce lê paulo coelho eu sou um alquimista cê vê jô soares eu sou madrugador
você é protestante acho o catolicismo retrógado e conservador

ai minha neguinha
minha kriptonita minha kriptonita minha kriptonita




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A Música do Â-hã - com amor para Eduardo Cabeção


Eu fui na casa da menina e ainda era de manhã
Uma chuvinha bem fininha molhava o meu gorro de lã
Os pingos batiam rápidos nos meus óculos ray-ban
E eu cantava u’a musiquinha que só dizia ã-hã

Eu deslizava em meu skate como num tobogã
E carregava na mochila contos de Maupassant
A mina era tão branquinha que parecia alemã
E eu cantando aquela musica que dizia ã-hã

Tinha comido uns biscoitinhos com chá de hortelã
Pensei que a mina era pura como uma virgem afegã
Ela curtia Caetano e adorava Djavan
Então cantei a cançaõzinha que dizia ã-há

Eu a chamava de Pedrita e ela me chamava bambam
Ela mora va muito longe resolvi tomar uma van
O motorista muito culto pôs pra rodar é o tchan
E eu continuei com a musiquinha que so dizia ã-hã

Quando cheguei na casa dela bati na porta tã tã
Me atendeu um camarada que parecia o Tarzã
Ela tentou se explicar mas a tentativa nfoi vã
Subi no skate fui embora e nunca mais cantei o ã-hã!


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Eu quero ser Andy Warhol - com amor para Devana Babu



eu torço o som que você aprecia
eu ouço só o som que não vai bombar
eu curto música progressiva
mas paro de ouvir se você gostar

gosto de ser underground
ser underground
mas todo mundo entende minha poesia
eu quero ser hermético e marginal
mas todos curtem o refrão das minhas melodias

quero ser Andy warrol
ser Andy warrol
mas eu não passo de um funkeiro de periferia
eu quero ser maldito e saio no jornal
como a mais nova sensação do dia

instalações e fotografia
dança contemporânea dadá bauhaus
art noveau concretismo e Cia
os irmãos campos e a teoria do caos

gosto de ser underground
ser underground
mas todo mundo entende minha poesia
eu quero ser hermético e marginal
mas todos curtem o refrão das minhas melodias





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eu tenho dito

























Eu tenho pressa e preguiça

Eu tenho pragas e preces

Prazeres e privações

Eu tenho férias e greves


Eu tenho médios e graves

Libélulas e borboletas

Eu tenho gula e fome

Eu tenho um plano de setas



Eu tenho alfas e betas

Eu tenho gamas e gnomos

Eu tenho pares de trios

Eu tenho comas e pomos



Eu tenho ternos de quadras

Eu tenho cornos e cones

Eu tenho autos e artes

Eu tenho boones e bonds



Eu tenho drops e halls

Eu tenho restos e rastros

Eu tenho ganas e gumes

Eu tenho ratos e mouses



Eu tenho flashes de fatos

Eu tenho flocos de flatos

Eu tenho pórticos práticos

Eu tenho pasmem pedaços



Eu tenho totens e trapos

Eu trouxe três ternos triplos

Eu tenho sócios são sátrapas

Eu tenho um som de senzalas



Eu tenho um certo ar aéreo

Eu tenho um sim de cimento

Eu tenho um não malemolento

Eu tenho um talvez estéril



Eu tenho tintas e pinto

Eu tenho cifras e toco

Eu tenho letras e canto

Eu tenho prosas e verso



Eu tenho tímpanos surdos

Eu tenho olhares mancos

Eu tenho pernas pernósticas

Eu tenho gagueira crônica



Eu tenho nome de santo

Eu tenho cara de anjo

Eu tenho pinta de sonso

Eu tenho porte de tonto



Eu tenho quarenta comparsas

Eu tenho trinta moedas

Eu tenho fama de bruto

Eu tenho a forma de um huno



Eu tenho truques e troças

Eu tenho achaques e achaco

Eu tenho espadas e espeto

Eu tenho afetos e assopro



Eu tenho dedos e afano

Eu tenho lábia e laboro

Eu tenho língua e ludibrio

Eu tenho pena e espada

Eu tenho dicas de discos

Eu tenho levas de livros

Eu tenho lavras de livros

Eu tenho dito




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no desamparo desta noite a cama é dura























no desamparo desta noite a cama é dura
a luz é morna e o silêncio asfixia
de vez em quando passa um auto em disparada
de vez em quando sobre o muro um gato mia

o vento sopra ladra um cão coruja pia
estrelas piscam sobre as casas da favela
um motoqueiro um pernilongo um choro ao longe
alguém que tosse e um vento frio na janela

um assobio e a resposta na outra rua
devo lembrar-me de trocar este colchão
vou a cozinha geladeira copo d'água
os sonhos pairam na casinha do meu cão

um grilo canta uma monótona modinha
um sapo faz a terça sem convicção
um ronco longo uma sirene agora um fusca
ligo a teve tá terminado o corujão

o sol vem vindo e a ilusão de atividade
vai desfazer durante um tempo este cansaço
mas novamente os sons da madrugada insone
vão me envolver e asfixiar no seu abraço



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Meu dedal de ouro




























Meu dedal de ouro
Que vovó me deu
Se o ourives derretesse
Eu te faria um anel

Mas vovó não me deu nada
Meus dedos são seus

Meu anel de ouro
Em formato de lua
Faria ricas argolas
Pras orelhas tuas

Perdi o anel e a alegria
Minha alma é sua

Argolas reluzentes
Transformo em pulseiras
Para te presnder
Pela vida inteira

Mas eu não sei  mais de nada
Não tenho eira nem beira

Os elos são virtuais
E estão nos meus tornozelos
Não tem cadinho no mundo
Que consiga derretê-los

Prendi-me em teus calcanhares
Com o ouro dos teus cabelos

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eu preparo o teu poema

eu preparo o teu poema
com aromas e recheios
como quem tempera trutas
para um amor delicado
como quem põe vinho raro
sobre uma taça de seios

eu preparo o teu poema
há coisa de três milênios
num caldeirão de feitiços
sobre o fogo das paixões
como quem depõe no jogo
os seus últimos ienes

eu preparo o teu poema
como buquê de champanha
como fragrância francesa
alquimia cd-rom
como quem faz grana falsa
ou fala numa língua estranha

eu preparo o teu poema
prum tempo que não vem nunca
numa dimensão sem horários
num espaço que não se alcança
como quem descansa a língua
nos vãos profundos da nuca

eu preparo o teu poema
nas madrugadas sem sono
com melindres de ourives
com cuidados de padeiro
como quem faz da papoula
uns olhos cheios de sonho

eu preparo o teu poema
com o mesmo rumor delicado
com que meu bisavô tibúrcio
tomava da palha escolhida
pro vespertino cigarro

eu preparo o teu poema
como um primeiro baseado

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carrego comigo junto

carrego comigo junto
todos os seus bísqüis
seu lábio torto comigo
e a vontade de ser feliz
carrego os porta-retratos
e alguns pensamentos vis
os copinhos de cachaça
e o sexo com quatro bis
a negra de porcelana
sobre um tapete de giz
crânio na mão como quem
casou-se com quem não quis
a felicidade passa
e eu escapo por um triz
o povo me vê na rua
e creia num tem quem diz
que o santo ali é bem pouco
sob o manto de verniz
e pra limpar minha sujeira
que torce qualquer nariz
mais de vinte caminhões
e um batalhão de garis
não limpam a minha alma
de todo o mal que eu te fiz

o amor devia vir
em formato de refis

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capital de giro


quando eu soprei a morte nas narinas do senhor
conheci mais sobre a vida em sua forma menos tola

ó minha lady galáctica
ó minha mística ogiva

quando eu subi na torre para afrontar ao senhor
deus burguês ó burguesia porque tanto se assanhou

minha fome macdonald
minha sede coca-cola
minha culpa mea culpa
por não ter feito afinal
o que podia de mal

ó minha gótica amante
ó minha lua minguante

quem me dera alguns pecados de que me arrepender!

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assim quem sabe despir-me

assim quem sabe despir-me da consciência como da roupa
assim despir-me um pouco de pensar
e colocar um véu pesado sobre a vista
e a transfigurar

ah perder um pouco a cousa prenhe refletir
quem sabe ter um deus e crer na natureza
não ter insônia e esta clareza turva
de incerteza

assim quem sabe em meio às horas mortas
ter um sossego n'alma e algum descanso
pensar em ritos ou dinheiro alguma coisa santa
um gozo manso

assim não adiar por tanto tempo a hora calma
de adormecer e descansar no teu abraço
o tempo passa nos meus olhos de ver tudo
e eu também passo

quem sabe tirar a razão como quem tira os óculos
e pô-la sobre o móvel uma tarde inteira
dispor desta clareza que não me traz calma
sobre uma cadeira

jogar pela janela fora isto de tanto analisar
perder-me deste esforço inútil pela essência
tocar na banda ter esperança olhar as rosas
fugir da onisciência

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aproxima-te mefisto


aproxima-te mefisto
o que teme que não vem
desembuça tua capa
desanuvia o olhar:

vou te falar sobre o bem

achega-te a mim ó cristo
o que temes afinal
desembaça o olhar vago
cessa o sermão um poucochito:

vou te falar sobre o mal


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amo-te de uma forma líquida


amo-te de uma forma liquida

de um modo interessantíssimo
e se às vezes eu tropeço nos sinônimos
é por que em ti minha alma bêbada

amo-te como à bandeira da pátria
e cativo dos humores químicos
testosterona e estrogênio
senhores quase hipnóticos

amo-te de uma forma úmida
com estertores quase físicos
com meus suores e hormônios
com meus licores e meus líquidos

amo-te arvore ou pássaro
amo-te lâmpada e minério
amo-te único e vario
renato russo maiakovski

sujeito ao deus da vida prática
minha alma porém sonâmbula
mas entre o vão das minhas dúvidas
vislumbro pálidos relâmpagos

de verdades inauditas
aos ouvidos dos católicos
e das moças evangélicas

amo-te de um jeito sólido

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minha deusa complexa




minha deusa complexa fartou se de aqui
minha coisa completa furtou-se de mim
minha causa imperfeita enfartou-se assim
tinha farsa inquieta meu sonho não/sim

vinha garça discreta da cor do luar
que desgraça indigesta esta a me amargar
que nefasta ninfeta já quase a trintar
quis trincar minha testa tostou meu jantar

Minha ninfomaníaca mudou-se a pé
Minha selva sinfônica sumiu pro tibet
Uma salva de vaias pro vil dagomé
Ou um silvo de naja e um pico em seu pé

E que morra na beira do paranoá
E que morda a si mesmo no vão pelejar
E que suje a mordaça com sangue a jorrar
Pelos cantos da alma se alma nel’há

era falsa finesse a que eu simulacrei
era valsa vienense o meu hardcore gay
peraí seu menino eu sei quando dancei
fera mansa acuada tip’ovelha sem grei

fora isso ativismo pacíficovarde
borá manso tão limpo no final da tarde
que eu descanse em paz deus me livre e guarde
vou-morar no ABC quando pronta a cidade

estou muito improvável às tres da manhã
é possível que chova na alma não sã
dezesseis mil goteiras na vã telha vã
o diabo o carregue tédio de satã

você ri do meu tombo de bêbado bardo
mas não vê que por dentro eu bárbaro ardo
entre rosas de fogo entre ramos de cardos
sucumbido ao peso de mim/mesmo fardo

vou tomar na cozinha um copo de café
você está sozinha ou percebe-me em pé
no vão da porta aberta da kit que quer
que furtivo a visite e lhe inculque minh’fé

minha doida solícita favor se oriente
minha cor favorita é amarelo oxente
minha dor tá explícita na cara da gente
minha métrica/rima é pobre e demente

o meu verbo invencível perdeu cabedal
enfiei minha língua no vão do embornal
é dia de finados não é carnaval
apois é tale coisa etecetera e tal

vai ser muito difícil vai ser rúim pra dedéu
tua ausência presente e eu já sou tão incréu
 inda mais engrossando a espessura do véu
que separa meu ácido do teu acre mel

Flor-de-lótus colheu-se a si mesma do brejo
Era dura a sentença do vil vilarejo
E sem música ou podium ou happy’end ou beijo
Ce fundiu minha cuca e fudeu meu desejo

Não é brás nem bexiga  nem largo do arouche
O lugar que insiste que o nó eu afrouxe
E liberte sem pejo a tristesse que eu trouxe
em tua chávena de ouro mil lágrimas doces

tudo isso que teço é logrando dizer
que um feitiço gostoso grudou-se em meu ser
como visgo de jaca e eu ateu julgo crer
e rezo pra jesus meu pedido atender:

que eu nunca me acostume a ficar sem você


Quadro da galeria de Sakuro Onoyama

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